quarta-feira, 19 de maio de 2021

Patriarcado: uma religião de inversão


Francine Sporenda

Tradução Mirian Giannella

 

A noção de inversão patriarcal é um conceito instrumental da análise feminista. O fato de que o discurso patriarcal pulula de inversões foi apontado por várias importantes teóricas feministas. Mary Daly especifica que "o patriarcado é uma religião de inversão, vivemos em uma sociedade de inversão.” (1) "Sonia Johnson relata que o que ela aprendeu sobre o patriarcado é que "ele mente constantemente" e que "suas mentiras são exatamente a inversão da verdade.” (2)

 

Aqui estão alguns exemplos de inversão patriarcal (lista não exaustiva):

- as mulheres dirigem mal - enquanto 84% dos acidentes rodoviários fatais são causados por homens (3). Excesso de velocidade e dirigir embriagado também são predominantemente masculinos.

- as mulheres falam demais - enquanto em um grupo misto, os homens falam mais que as mulheres, interrompem-nas, reclamam, usam todo tipo de estratégias para monopolizar o discurso, como destaca o estudo da Universidade de Princeton “O Sexo Silencioso” (4).

- as mulheres são menos inteligentes do que os homens - enquanto a porcentagem de mulheres com ensino superior é maior do que a dos homens em todos os países ocidentais (nos Estados Unidos, mais de 25%) (5). Observe que, quando as mulheres não tinham acesso à educação, os homens alegavam que, se eram ignorantes, era porque eram menos inteligentes. Por outro lado, quando elas os superam em praticamente todas as disciplinas, não é porque são mais inteligentes do que eles - eles explicam - é apenas porque são mais dedicadas e disciplinadas...

- as mulheres são incapazes de controlar suas emoções, elas são histéricas - enquanto os homens estão sujeitos a explosões de raiva, ciúme etc. que pode ir tão longe quanto violência e assassinato. E eles próprios admitem que não se controlam - essa falta de controle supostamente justifica a violência. Na verdade, este é um padrão duplo: ser dominado pelas próprias emoções é desaprovado nas mulheres, a raiva em particular é proibida para elas; por outro lado, quando os homens se entregam a essa emoção viril, ela é vista como uma assertividade fortalecedora e sinaliza seu pertencimento à categoria dominante. Eles têm o direito de vomitar sua raiva sobre os dominados, de se enfurecer, de gritar e de reclamar (e neste caso, as mulheres devem dar um ouvido solidário), mas o inverso não é verdadeiro: qualquer tentativa por parte das mulheres de exteriorizar suas emoções em relação aos homens será visto como indesejável ou histeria. Assim como o "elas falam demais" visa a silenciá-las, o "elas são histéricas" as proíbe de expressar sua raiva, protestar ou reclamar.

- Como corolário da afirmação anterior, as mulheres são irracionais porque são dominadas por suas emoções. Esta afirmação é uma das mais grotescas desta lista: a alegação de que o comportamento masculino é fundamentado na razão é o cúmulo da inversão, dada a importância estatística da violência masculina e do crime em comparação com as mulheres (96,3% da população carcerária na França é do sexo masculino). Guerras, escravidão, colonialismo, racismo, fascismos, ditaduras e totalitarismos, fundamentalismos religiosos, terrorismo, capitalismo selvagem, genocídios, feminicídios, ecocídios, todas essas calamidades impulsionadas essencialmente por homens (e cujo custo está na casa das centenas de bilhões, como destaca Lucile Peytavin em seu livro “O custo da virilidade”) dá uma ideia precisa da racionalidade da governança masculina (6).

- Como corolário da afirmação anterior, as mulheres são incapazes de serem líderes porque são irracionais e emocionais. No entanto, numerosos estudos mostram que as empresas onde há mais mulheres gerentes têm melhores resultados - outro argumento para se opor à chamada racionalidade masculina: a racionalidade econômica, ou seja, a pesquisa. A maximização do lucro deve encorajar os homens, com base nesses estudos, a feminilizar os escalões executivos de sua empresa em seu próprio interesse, mas não é o caso: preferem prejudicar o resultado financeiro de sua empresa a dividir seu poder com as mulheres (7). Numerosos artigos apontaram, com números em apoio, que a crise de Covid foi melhor administrada, que o número de doentes e mortos foi menor em países liderados por mulheres (8). E os países onde as pessoas vivem melhor, de acordo com o Índice de Progresso Social de 2020, são governados por mulheres (9).

- são as vítimas (mulheres estupradas e espancadas) a causa da violência que sofrem, porque são elas que “procuram” e provocam homens inocentes.

- as mulheres são controladas pelo útero - enquanto são os próprios homens que admitem ser guiados por seus impulsos sexuais, (que também afirmam ser incontroláveis), como evidenciado pela violência massiva que cometem (99% de estupros e 97% de violência sexual é cometida por homens) (10) e seu consumo obsessivo de pornografia.

- as mulheres são possessivas e ciumentas - ao passo que são predominantemente os homens que matam quando são enganados ou abandonados (11).

- a criminalidade masculina sendo frequentemente explicada/desculpada por traumas de infância, e os responsáveis são geralmente as mães "castradoras", negligentes ou demasiadamente fusionais - enquanto são os pais, padrastos ou outros membros masculinos da família que são os principais perpetradores de violência familiar cometida contra crianças (incesto, violência física, etc.) (12).

- os homens são protetores das mulheres - enquanto as mulheres são muito mais atacadas por homens do que protegidas por eles.

- na Bíblia, Eva é apresentada como nascida de um homem, Adão. Na mitologia grega, Zeus, um deus masculino, dá à luz Atenas e Dioniso. Mary Daly aponta que essa inversão radicalmente antibiológica  "serve para demonstrar que Deus é masculino - e que o masculino é divino".

 

 E inversões mais recentes como:

- "BDSM é fortalecedor" (a submissão sexual é fortalecedora).

O Freudismo é um catálogo de inversões, aqui estão alguns exemplos:

- entre as mulheres, o senso de justiça é pouco desenvolvido (dixit Freud) (13) - embora sempre tenham sido numerosas, mesmo em sua maioria, nos movimentos por justiça social e pela defesa dos direitos dos oprimidos (o antiescravista abolicionismo, antiespecismo, Black Lives Matter, etc.). E, acima de tudo, que Freud considere o senso de justiça como uma característica viril quando a dominação masculina repousa sobre imensa injustiça - a exploração e opressão da metade feminina da humanidade - é o cúmulo do absurdo falocrático (14).

- as mulheres sentem “inveja do pênis” que estruturaria sua psicologia. Na realidade, as mulheres estão longe de dar ao pênis a importância que seus donos lhes dão; o que eles podem invejar é o status privilegiado e os muitos direitos e benefícios que a posse deste corpo proporciona. Na verdade, são principalmente os homens que se disfarçam de mulher, tomam hormônios para ter seios e recorrem à cirurgia para satisfazer sua "inveja de vagina": o número de transgêneros mtf (15) é cerca de 4 vezes maior do que trans ftm (16).

 

DEFINIÇÃO DE INVERSÃO

O padrão de inversão é óbvio: trata-se de dizer que algo é exatamente o oposto do que é. “Submissão é poderosa”, “Escravidão é liberdade”; tais afirmações visam a substituir a realidade visível percebida pelo ouvinte da mensagem por uma realidade alternativa favorável aos interesses dos dominantes que é a exata antítese dela, sendo o objetivo desejado que o indivíduo-alvo não confie mais em sua própria percepção, e sim em um discurso externo “autorizado”. Como Orwell observou, a inversão é um instrumento essencial no controle ideológico dos dominados, tanto que a freqüência das inversões em um discurso é indicativa de seu caráter ideológico. Pelo uso desse processo retórico, os dominantes se apropriam da representação da realidade e, ao apresentá-la como verdadeira e universal, impõem socialmente a visão particular que têm dela, ao passo que é apenas a expressão subjetiva de sua consciência de classe.

 

AS MENSAGENS CÓDIGO DAS INVERSÕES PATRIARCAIS

As inversões patriarcais geralmente operam com base na dupla projeção (ou projeção/apropriação): os homens projetam nas mulheres algumas de suas características negativas ("as mulheres não sabem dirigir", "as mulheres falam demais") ou vice-versa. Suas características positivas (a capacidade de proteger, de dar à luz, como nos mitos de Adão e Eva e nos relatos da mitologia grega citados acima, onde os homens são ‘as mães’).

 

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A inversão patriarcal geralmente tem um conteúdo prescritivo/normativo implícito: dizer que as mulheres dirigem mal, que falam demais, que são irracionais, menos inteligentes, é sugerir que não devem dirigir, que não devem falar, raciocinar, supor certas responsabilidades ou estudos. Em todos os casos, para os homens, trata-se de dissuadir as mulheres de aceder às atividades essenciais ao exercício da dominação, que pretendem, portanto, reservar estritamente para si mesmos: circular livremente (escapando assim ao seu controle), raciocinar e falar (e expressar uma opinião diferente da deles), estudar e obter diplomas (permitindo-lhes ter acesso e competir com as profissões masculinas); no discurso patriarcal há muito tem sido considerado um dado adquirido de que as mulheres são incapazes de serem médicas, advogadas, professoras, etc.

Evidentemente, trata-se de negar às mulheres qualquer forma de acesso ao poder, prerrogativas e privilégios masculinos, para garantir que nunca andem sobre as camas dos homens e sejam totalmente excluídas de áreas que são as deles. Caçadas com cautela: a inversão patriarcal estabelece o que as mulheres podem e não podem fazer, reafirma a divisão sexual dos papéis sociais, é uma chamada à ordem de gênero. Um lembrete cuja insistência é compreensível quando vemos que, quando finalmente conseguem se livrar das limitações que lhes são prescritas, as mulheres superam os homens em várias áreas tradicionalmente consideradas especificamente viris. Filósofos antigos, defensores do controle masculino estrito sobre as mulheres, perceberam o perigo; Cato, o Velho, advertiu: "Se deixarmos que se tornem nossos iguais, elas se tornarão superiores a nós." 

 

A NATURALIZAÇÃO DA DOMINAÇÃO

A inversão carrega assim uma mensagem dissuasiva dirigida às mulheres, mas esta é sutil: não diz explicitamente que os homens não querem que as mulheres dirijam, ingressem em profissões masculinas ou ocupem cargos de comando, apenas diz que as mulheres não podem: não que os homens não queiram, é que as mulheres não podem; e sugere-se que se elas lideram mal ou são incapazes de liderança, é por causa de características que têm sua origem em sua própria biologia: falta de senso de orientação, excessivamente controladas por seus hormônios, etc. – Elas não tem as qualidades necessárias, e é a natureza que quer isso. Felizmente, a natureza é bem feita: dotou convenientemente as mulheres com as habilidades para as tarefas (cuidar de crianças e homens, etc.) que a sociedade exige delas.

Porque para preservar a dominação masculina (ou racial) de qualquer questionamento, é imprescindível conseguir persuadir os dominados de que a superioridade de seus líderes e sua própria inferioridade não são construídas socialmente e resultam da implementação de um projeto político, mas que têm sua fonte em diferenças biológicas, portanto imutáveis; é a premissa que está na base do racismo e do sexismo. E essa assertiva "as mulheres não sabem dirigir" permite transformar a injunção interditiva: "não devem dirigir" em uma simples observação aparentemente objetiva: são inadequadas para isso. A tomada do poder de uma classe sexual sobre outra desaparece por trás da "natureza", a biologia escamoteia a política e a figura do déspota masculino é substituída pela do homem protetor ansioso por poupar a fragilidade dessas criaturas delicadas. Se a sociedade não permite que pratiquem todas essas atividades, não é discriminação, é para protegê-las: a dominação existe para o bem dos dominados. A cada dia, a inversão lembra às mulheres que a dominação masculina é legítima e inevitável, mas, se o fato de ter que reafirmar constantemente que as mulheres não podem pensar, liderar ou comandar, é precisamente porque elas podem. Não é necessário lembrar a um cego que ele não pode dirigir.

Esta naturalização da opressão acarreta uma dupla incapacidade para as dominadas de derrubá-la: primeiro por causa de sua redução a uma causalidade naturalista imutável que lhes envia a mensagem de que qualquer tentativa de desafiar o status quo está fadada ao fracasso - e a "ciência" diz isso (na verdade, é a sociobiologia) - porque seríamos determinadas pelo que foi escrito em nossos genes há milênios. Mas também porque a categoria dominante oferece uma justificativa imaginária para suas prescrições: para lutar efetivamente contra um oponente, você deve primeiro saber exatamente quem está enfrentando e ter uma ideia exata e realista. Na medida em que a dominação masculina se esconde em uma névoa de ilusões e mentiras, a confusão criada nas mentes das dominadas é tal que muitas internalizaram a naturalidade dessa dominação, e nem mesmo estão cientes de sua existência - o que exclui a priori qualquer possibilidade de contestá-la: pode-se agir sobre a realidade, não sobre uma ilusão - só se pode revelar uma ilusão.

Obviamente, dizer "as mulheres dirigem mal" também implica que os homens dirigem bem. Significar que as mulheres falam demais é sugerir que os homens falam apenas o necessário e sobre coisas importantes, não trivialidades e fofocas. Quando afirmamos que as mulheres dirigem mal, falam demais, são irracionais, estúpidas e perversas, desse conjunto de características “femininas” emerge uma imagem de feminilidade que reafirma a paralisante inferioridade da mulher postulada há milênios pela misoginia patriarcal. Mas é também inferir que os homens possuem todas as qualidades que faltam a elas: sistematicamente pejorativa para as mulheres e benéfica para os homens, a inversão patriarcal reafirma constantemente a inferioridade de alguns e a superioridade de outros.

Um caso particular que as feministas conhecem bem é a “culpa da vítima”, a inversão de responsabilidade ou inversão acusatória no tratamento do estupro por meio do discurso patriarcal: são mulheres e meninas estupradas que levam os homens ao estupro, por meio de seu comportamento. Elas provocaram o estuprador - e os estupradores presos pelos aborrecimentos dessas mulheres sedutoras, são os únicos a ter pena: suas vidas são destruídas, sua reputação saqueada. Aqui encontramos o esquema de projeção/apropriação do "golpe duplo" visto acima: a culpa dos agressores é projetada nas vítimas, justificando sua opressão, e eles são os vitimados.

Note que nesse tipo de inversão, quem age é apresentado como aquele que sofre a ação, o agressor é apresentado como passivo e o agredido como ativo: vemos que o discurso patriarcal não se preocupa com a coerência e não hesita em contradizer seus próprios estereótipos - atividade (sexual em particular) como masculina em oposição à passividade feminina - se isso permitir que os agressores sexuais sejam exonerados de qualquer responsabilidade. Em qualquer sistema de dominação, paradoxalmente, aqueles que detêm o poder nunca são culpados ou responsáveis por nada, sendo as categorias dominadas, por definição, as culpadas e designadas como bodes expiatórios. Sob essa regra de ouro, nas sociedades patriarcais, a responsabilidade pelo comportamento anti-social e criminoso masculino é geralmente transferida para as mulheres.

A confusão semântica veiculada pela inversão acusatória visa, assim, ao interpor as figuras do oprimido e do opressor, produzir uma confusão de valores: trata-se de fazer com que os indivíduos visados percam suas referências morais, para habituá-los a aceitar o inaceitável, para entorpecê-los à injustiça e opressão, para condicioná-los a um relativismo moral de modo que passem a considerar legítimos os crimes e a violência quando cometidos pelas categorias no poder. Em particular, basta garantir que a imagem dos dominados seja detestável para que o uso da mais extrema violência contra eles pareça justificado, (o que foi conseguido pela propaganda anti-semita antes da Segunda Guerra Mundial para os judeus, e hoje a propaganda pornográfica para as mulheres), sendo esta indefinição dos padrões morais dos cidadãos o pré-requisito para qualquer tomada autocrática do poder.

A inversão também pode ser um oximoro: dois fatos contraditórios são declarados na mesma frase ("a submissão é fortalecedora", "a paz é guerra", "o homem é uma mãe"). O efeito produzido é uma destruição do sentido, um absurdo é atacado como evidência, uma impossibilidade lógica é apresentada como um fato indiscutível - o resultado sendo um espanto, um bloqueio da própria possibilidade de pensar: o raciocínio é curto-circuitado. Sujeito a tal regime de normalização progressiva do absurdo (do qual Trump tem sido um caso clássico, com suas mensagens constantemente empurrando os limites da extravagância no Twitter), o indivíduo não reagirá mais a um discurso repleto de contradições e paralogismos, sua habilidade para raciocinar, questionar, duvidar, distinguir informações verdadeiras de falsas, informações confiáveis, originadas e verificadas de notícias falsas e fantasias conspiratórias serão afetadas. Privado dessa capacidade elementar de pensamento crítico, o eleitor ficará indefeso diante dos empreendimentos de manipulação propagandista - disposição ideal para garantir sua docilidade diante do poder autoritário.

 

OBJETIVOS DO DISCURSO INVERTIDO

Ao oferecer uma versão da realidade contrária ao que os indivíduos têm diante de si, aos poucos os acostumando a aceitar sem pestanejar o inacreditável e o ilógico, o discurso da inversão visa testar e desenvolver sua credulidade. Como tal, é uma forma de gaslighting coletivo, que tem ainda mais impacto sobre os dominados, pois, em uma sociedade patriarcal, os homens são os detentores do conhecimento, a classe ‘culta’: só eles são qualificados para nomear e definir, sendo o subjugado, por definição, ‘não-culto’, não competente para dar conta da realidade e mesmo de si mesmo; suas percepções são inválidas por definição, o que eles pensam e dizem não conta, sua subordinação por definição exclui qualquer reconhecimento de sua qualidade como sujeito pensante e conhecedor. Enquanto o grupo dominante reivindica a exclusividade dessa posição de sujeito e fala em nome dos dominados que exclui da fala: os homens escreveram inúmeros tratados sobre "a Mulher", sua psicologia, sua sexualidade, suas doenças, seu papel social, seu mistério etc., mas, o inverso não existe: nomear e definir são prerrogativas do dominante.

O fato de afirmações tão radicalmente contrárias à realidade serem amplamente aceitas como verdadeiras obviamente decorre da autoridade do locutor: como diz Sonia Johnson, “a realidade é uma construção internalizada definida e controlada pelo grupo dominante” (16). Um excelente exemplo desse poder do discurso patriarcal de impor sua versão da realidade contra todas as evidências é esta afirmação do argumento masculinista que se encontra regularmente nas redes sociais: "As mulheres são tão violentas quanto os homens". A mídia publica diariamente matérias sobre estupro, feminicídio, pedofilia, incesto, violência doméstica, assédio, todos os tipos de violência cometidos por homens. Nada parecido com isso para as mulheres - embora a rara violência das mulheres seja destacada para justificar essa afirmação. No entanto, a tese da igualdade de violência da mulher continua a ser sustentada e aceita - enquanto as evidências em contrário são veiculadas todos os dias na mídia - porque o peso da voz dos governantes é tal que faz com que os dominados aceitem uma versão da realidade em total contradição com o que eles percebem. É por isso que um dos slogans fundamentais do feminismo é ‘confiar em nossas percepções’.

 

A LINGUAGEM CRIA A REALIDADE

É a linguagem que constrói essa realidade invertida, e quem tem o poder de construí-la são os que controlam a linguagem: “quem tem o poder de nomear tem o poder de fazer existir”. Como Orwell aponta o controle psicológico de categorias dominadas por uma reinvenção ideológica da realidade requer uma reinvenção da linguagem - o que ele chama de Novilíngua em seu livro - linguagem que deve ser colocada a serviço da categoria dominante em todos os casos. Este uso subserviente da linguagem visa evitar que as categorias dominadas vejam o que vêem e pensem o que pensam e, para isso, garantir que um discurso externo parasite seu pensamento: “nós” pensamos por eles, a própria linguagem pensa por eles, e já que as palavras pertencem aos dominantes, integrar seus elementos de linguagem é integrar seu pensamento. E essa formatação do pensamento pela linguagem se dá em um nível infra-consciente, não só "um" pensa por você, mas você pensa que é você quem pensa: um indivíduo assim colonizado mentalmente por pensamentos-reflexos não tem consciência de ser manipulado, ele é persuadido de ser livre (“a escolha é minha”). Em tal sistema, a reflexão pessoal não ocorre mais, as informações adquiridas por meio de um processo de investigação e reflexão independente são desacreditadas - pensar individualmente é desobedecer, em si mesmo uma manifestação de insubordinação - e é substituído por mêmes, crenças e mitos validados coletivamente.

 

INVERTER A INVERSÃO

Como Maria Mies nos lembra em seu livro “Patriarcado e Acumulação em Escala Mundial” (18), o patriarcado é um sistema de dominação dos homens sobre as mulheres, originalmente estabelecido pela violência direta e coerção física, substituído pouco a pouco (mas apenas em parte) pela violência institucional (família, estado, etc.). O objetivo desse sistema de dominação é apropriar-se de seus corpos, de sua capacidade reprodutiva, de sua sexualidade, seu trabalho e os produtos deste trabalho: a colonização da categoria das mulheres pela dos homens é o protótipo de outra instituição, patriarcal e fundadora capitalista – a escravidão - e mulheres foram os primeiros a serem colonizados. E o lugar dessa espoliação é essencialmente o casal e a família.

Mies descreve um sistema de predação organizada, onde uma classe de homens dominantes - portanto originalmente não produtores, a dominação anda de mãos dadas com a improdutividade, já que se é dominante pelo próprio fato de se apropriar do que as categorias que produzem. Os produtores - mulheres, colonizados, proletários, trabalhadores etc. A ligação intrínseca entre improdutividade e pertencimento à categoria dominante era particularmente clara no sistema feudal, com as regras nobiliárias estipulando que o trabalho produtivo implicava a perda do pertencimento à nobreza (derrogância). Ela enfatiza, no entanto, que de acordo com a ordem patriarcal, os proletários e colonizados recebem da classe dominante, em troca de sua própria escravidão, o direito de escravizar as mulheres - mas somente as mulheres da sua classe: o trabalhador está submetido àquele que ocupa o lugar de Pai na sua empresa, o patrão e seus agentes de execução - mas em sua família, é ele quem ocupa este lugar, e em troca do empregador e da autoridade do estado que ele aceitou, o estado não impõe nenhum limite à sua autoridade sobre sua esposa e filhos.

Esse caráter intrinsecamente predatório, parasitário e explorador da categoria dominante, o "segredinho sujo" do patriarcado, deve permanecer secreto tanto quanto possível, e é aí que entra em jogo a violência simbólica do discurso da inversão, cuja função é operar uma positivação sistemática dessa negatividade fundadora. Porque o que caracteriza esse sistema é que quem se entrega a ele como superior, o mais importante, o mais competente, o mais socialmente indispensável, o mais ético, o mais digno de admiração, o melhor em tudo são de fato os menos... E o mais dispensável: como lembra a atual crise epidêmica, o que é mais útil para a comunidade, o comerciante, o CEO de uma empresa de publicidade, o gerente em um trabalho de merda, ou o caixa do supermercado, a enfermeira ou o coletor de lixo? No entanto, os indivíduos que a história e a mídia destacam costumam ser sociopatas: são multibilionários vorazes, conquistadores brutais, ditadores massacrantes cujos milhões de mortos fazem assassinos em série parecerem amadores... Segundo a máxima de Demócrito, "o comando pertence ao melhor", mas, em um sistema patriarcal, o comando pertence ao pior: geralmente é o mais violento, o mais predador, o mais manipulador, o mais corrupto que está no poder, e a superioridade do dominante é apenas o corolário de sua inferioridade moral: ao nível dos próprios valores que fundaram a sua existência, a dominação masculina é estruturalmente inversa.

Essa inversão fundadora, o discurso inverso tem a função de invertê-la, visa fabricar a ficção de um poder altruísta, reto e protetor e apresentar os dominantes como encarnação do Bem enquanto reinam por constrangimento, violência e mentiras. Na pseudo-realidade que propõem, o crime patriarcal será apresentado como benéfico, a violência masculina será declarada útil e civilizadora (tese defendida por Eric Zemmour), a exploração capitalista "trickle up" será transformada em "trickle down", um sistema de predação e cobranças em benefício de poucos serão apresentadas como justas e operando no interesse coletivo. Colonizamos populações inteiras e dizemos que é para libertá-las e educá-las: “Escravidão é liberdade”. Invadimos países e fingimos que é para restaurar a ordem: “guerra é paz”. Argumenta-se que a sexualidade é incondicionalmente libertadora para as mulheres estarem mais plenamente sujeitas às demandas sexuais masculinas. A submissão poderosa de BDSM é declarada para convencê-los a aceitar ser torturados. Legalizamos a prostituição e o cafetão (para podermos cobrar impostos), e dizemos que é para proteger as prostitutas. Etc.

Instrumento essencial de controle social, a inversão patriarcal visa ocultar o fato de que no patriarcado o mundo anda de ponta-cabeça: é preciso operar uma inversão de valores, virar o mundo de cabeça para baixo para dominar. Ao agir pela linguagem a transmutação do agressor em vítima, de parasita em produtor, de predador em protetor, é a máscara sob a qual o patriarcado esconde sua impostura fundadora. Se Orwell, um socialista convicto, discerniu e analisou seu papel central no discurso totalitário, ninguém (exceto algumas feministas) percebeu que esse dispositivo onipresente da Novilíngua, conforme descrito em "1984", também é central no discurso patriarcal, a serviço de objetivos idênticos de controle e escravidão: "Novilíngua é linguagem masculina", disse Mary Daly. Talvez seja porque os homens sempre foram muito mais rápidos em detectar e denunciar a escravidão dos homens do que das mulheres.

 

NOTAS

  1. « Gyn/Ecology, the Metaethics of Radical Feminism », 79.
  2. « The Ship That Sailed Into the Living Room, Sex and Intimacy Reconsidered ».
  3. « Le coût de la virilité », kindle, 41.
  4. « The Silent Sex », kindle, 17.
  5. https://kulturehub.com/women-educated-men-money/?fbclid=IwAR2ANJGKvcp-gVoQeKSV5slShUU46Mbf4sLfv9dMrKek_A7-z26TPUtA9Us

6.       Neste livro, Lucile Peytavin calcula que o custo da virilidade, apenas para a França, é de 95,2 bilhões de euros.

  1. https://www.cnbc.com/2019/10/18/firms-with-a-female-ceo-have-a-better-stock-price-performance-sp.html
  2.  https://business.lesechos.fr/entrepreneurs/toujours-plus-haut/coaching/0603770112349-coronavirus-les-pays-diriges-par-des-femmes-ont-mieux-gere-la-crise-339396.php
  3. https://www.forbes.fr/femmes-at-forbes/les-pays-ou-lon-vit-le-mieux-sont-diriges-par-des-femmes/
  4. Peytavin, 41.
  5. https://www.francebleu.fr/infos/faits-divers-justice/violences-conjugale-les-hommes-tuent-leurs-femmes-pour-la-garder-1502800116
  6. https://www.midilibre.fr/2019/01/06/93-des-pedophiles-sont-des-hommes-maries,7080171.php
  7. https://freudquotidien.wordpress.com/1932/05/30/sigmund-freud-sur-le-sens-de-la-justice-chez-les-femmes/
  8. https://www.bbc.com/news/av/world-55123050
  9. https://psychology.stackexchange.com/questions/23841/why-are-trans-women-more-common-than-trans-men
  10. https://segredosdomundo.r7.com/mulher-trans-expressoes-lgbt/?fbclid=IwAR0nUXWvdLcQv8v7zAkFniikU6dfmmTVamcuaJlqJX0GI3mZYEHcmZU1EnM [N.daT.]
  11. « Wildfire, Igniting the She-volution », 11.  
  12. « Patriarchy and Accumulation On A World Scale », XX

 

Bibliografia

Sonia Johnson

« Wildfire, Igniting the She-volution ».  London,  Headline Books, 1989.

« The Ship That Sailed Into the Living Room,  Sex and Intimacy Reconsidered ».  Estancia, Wildfire Books, 1991.

Mary Daly, « Gyn/Ecology, the Metaethics of Radical Feminism ».  London, the Women’s Press, 1979.

Maria Mies, Patriarchy and Accumulation On A World Scale: Women in the International Division of Labour. London: Zed Books,1999.

Lucile Peytavin, « Le coût de la virilité », kindle. Paris, Carrière, 2021

Christopher Karpowitz & Tali Mendelberg, « The Silent Sex : Gender, Deliberation and Institutions ». Princeton, Princeton University Press, 2014.

 

Fonte: https://revolutionfeministe.wordpress.com/2021/05/16/le-patriarcat-une-religion-dinversion/

 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

A fábrica do viril: o aprendizado da masculinidade tóxica

A fábrica do viril: o aprendizado da masculinidade tóxica[1]

Entrevista de Francine Sporenda – 3 de agosto de 2019

 

Olivier Manceron é médico, escritor (25 peças de teatro) e autor de "Sex Zero" e "Palavras de homem: reflexões masculinas para uma sociedade feminista igualitária".

 

FS: Você escreve que "o macho encarna o Mal" e que a cultura patriarcal perverte o homem. Como você se sente como um homem sobre a imensurável violência e destruição patriarcais que, agora, ameaçam o futuro do planeta? Os porta-vozes da dominação masculina salientam o fato de ser natural e, portanto, imutável. Você acha que essa violência é completamente construída, ou ela tem uma base biológica?

 

OM: A cultura patriarcal é a cultura da perversão. Para obter a servidão voluntária de cada indivíduo, vamos mudar a forma como o cérebro humano funciona. Trata-se de reverter os princípios do desenvolvimento dos sentimentos humanos e do pensamento sem alterá-los. É um mecanismo da perversão que usa a inversão do significado de emoções e construções mentais. Atração se torna rejeição, amor se torna ódio, empatia, desprezo e solidariedade, indiferença. Permite que alguns humanos usem outros humanos como coisas, ferramentas. Para o conseguir, temos primeiro de chegar à cabeça das pessoas e ver o mundo como um tabuleiro de xadrez, um campo de batalha. É neste círculo que serão selecionados os mais fortes, e os vencedores tornar-se-ão, de alguma forma, o povo eleito.

Enquanto ser humano rotulado de homem, fico, naturalmente, envergonhado. É natural que nos envergonhemos, de fato, que aceitemos essa vergonha, em vez de a recusarmos. Para nós, homens, somos todos cúmplices e o silêncio da maioria nos protege do crime: eles não fizeram nada de errado, foram perfeitos, eles dizem, e calam a boca. A cumplicidade masculina é um tipo de associação criminosa que a sociedade legitima. A vergonha fecha os lábios, como a omerta siciliana. E como a negação é um mecanismo psicológico muito humano, os humanos usam a negação para facilitar o gerenciamento dessa vergonha insuportável. Falar dessa vergonha, para um homem, já é traição.

Existem muitas justificativas científicas, biológicas e genéticas que essencialmente fazem esse discurso: "É da natureza humana, nós homens temos muita testosterona, que muda o comportamento, faz nosso comportamento ser violento, é assim que é. Olhem para os animais tão poderosos, lutando, touros que se chifram, veados que se cabeceiam, etc. " Encontraremos então todo o tipo de justificativas etológicas — mas nas espécies animais temos tudo e o contrário. Pode-se justificar o injustificável pelo exemplo de certas espécies.

 

FS: Mas essas comparações com animais não são mais justificadas quando comparamos com animais que estão próximos de nós, como os grandes macacos?

 

OM: Os grandes símios estão muito próximos de nós do ponto de vista genético e fisiológico, mas são muito diferentes do ponto de vista social. Cada espécie tem uma forma particular de trabalhar e, de qualquer modo, seu modo de trabalhar não pode justificar ou explicar o nosso. Esta biologia da dominação é uma fantasia sexista. Os argumentos científicos não explicam nada e nada foi realmente demonstrado. O que sabemos, no entanto, é que podemos, de fato, perverter e, efetivamente, o cérebro humano — vemos quase diariamente.

 

FS: Pode nos dizer como garotos são condicionados desde o nascimento a serem pequenos déspotas?

OM: Os meninos são como todos nós, condicionados pelo banho cultural em que vivem. Desde o nascimento até à morte, a opressão física, psicológica e cultural do sexismo é firmemente mantida em todas as fases do desenvolvimento da criança. Por isso, é muito difícil falar sobre isso. Todas as nossas percepções, todas as nossas análises estão distorcidas, estivemos numa sociedade sexista por inúmeras gerações, então como podemos separar o que é sexista do que é social? Todos nós precisamos de amor e paz, e isso é algo que o sexismo não pode destruir completamente. No entanto, a máquina de formatar parece funcionar bem. Os meninos têm de passar por quatro fases sucessivas para se tornarem homens "viris", para se formarem déspotas. Primeiro, devem nascer numa sociedade segregacionista. Esta segregação baseia-se no sexo e é obtida através do terror. A noção de superioridade masculina sobre as mulheres tem sido veiculada por quase todos os membros desta sociedade através de assédio, agressão, tortura, massacres, coisas horríveis durante milhares de anos.

Neste contexto de gênero, as mulheres são socialmente valorizadas pela sua capacidade de serem mães — e em algumas partes do mundo, elas são valorizadas apenas na maternidade. Mas esta maternidade, deve ser bem sucedida, não é uma maternidade qualquer. Uma boa mãe deve conceber, com facilidade e passividade, indivíduos, que mais tarde serão dados a serem consumidos pela sociedade sexista.

Esta segregação entre homens e mulheres baseia-se no controle do corpo feminino. Essa fase inicial de produção dos viris impacta os meninos ao inculcar-lhes que a mãe só tem importância por causa deles. Só tem valor para o corpo social quando dá à luz um menino. E é como se fosse demais. O bebê é desejado demais, porque dá à mãe a sua existência. A relação dupla entre bebê e mãe é desviada, pervertida. Ela é a origem dele, ele é o seu cetro. Ele é "objeto".  O seu pequeno sexo é visto como uma ferramenta simbólica do pequeno poder social obtido pela mãe em sua família, em seu clã, em todos os níveis da sociedade. O bebê está cativo a esse papel, é uma sensação sufocante, até mesmo destrutiva para a mãe e a criança.

No próximo estágio, em certa idade, dependendo do tempo e da cultura, o menininho é sequestrado da mãe, mais ou menos brutalmente, com vários rituais de passagem, batismo, circuncisão, sempre mais ou menos assustadores. Ele é removido da gineceu — que é sempre bem separado do mundo dos homens — para ser transferido para o mundo dos homens. E lá, inevitavelmente, ele não apenas está privado do cuidado e afeto de sua mãe e de todo o mundo das mulheres, como vai se encontrar embaixo na hierarquia masculina viril, na posição de fraco, feminizado, numa situação de vulnerabilidade e solidão. E ele vai sofrer violência, ou vai testemunhar violência, especialmente violência sexual. Ele é a criança-coisa, será violentado, o aprendiz, maltratado, o soldado-criança, desumanizado.

Na próxima etapa, o adolescente, o pré-viril será submetido a rituais mais ou menos precisos, mas sempre repetidos, encantadores, de acordo com os tempos e lugares do mundo; por vezes, há rituais de passagem particularmente violentos e perigosos; sob outros céus, ele pode passar por etapas sucessivas no curso da escola ou universidade, ou atividades esportivas, entronizações nas grandes escolas. Assim que o jovem se encontrar na horda viril, sofrerá, ou fará sofrer, um cortejo de violências.

 

Ele aprendeu a esquecer que primeiro ele foi vítima e, depois, pode se tornar um carrasco. Ele vai devolver as fotos. Ele aprenderá a fazer o que sofreu com o mais fraco de sua comitiva: crianças mais novas, meninas e mulheres. É através desta formação que obtemos do jovem que ele se torne, através desta cumplicidade implícita ou explícita, o homem em que outros homens podem confiar. Ele é entronizado viril.

 

FS: Você diz que a virilidade só pode ser validada por outros homens – só eles podem discernir um “certificado de virilidade” – e é preciso primeiro sofrer para ter, em seguida, o direito de fazer sofrer. É isso o que diz?

OM: Exatamente.  Para quebrar o indivíduo, para obter dele, em seguida, sua submissão às regras patriarcais, é preciso torná-lo manipulável, mas, ativo. A vítima é sempre passiva, seja um bebê, uma criança, um velho, uma mulher. A vítima recebe a violência, sem ser responsável, sem fazer nada, enquanto o carrasco deve ser ativo. O homem viril deve ser ativo e para isso, deve sair da situação de vítima para se tornar o carrasco. E nessa altura, torna-se totalmente cúmplice do sistema, ele não pode voltar atrás. Nossos sistemas de pensamento são essencialmente dualistas. Se um homem se define como masculino, isto é em comparação ao feminino, enquanto a masculinidade, ela, não se define em comparação com as mulheres. Uma mulher pode apreciar se um homem é viril ou não, mas não é só a sua opinião que ‘atesta’ a virilidade do homem. Não cabe às mulheres decidir quem é o viril ou os poderosos, são os próprios homens que, entre si, vão se medir. Eles se medem tudo: o nariz, o pinto, o desempenho físico e no esporte, o montante da conta bancária, a capacidade de possuir, de dominar. Estas medidas, além de, aliás, permitirem separar o feminino do masculino, também permitem definir, no grupo masculino, aqueles que são mais masculinos, ou seja, os verdadeiros viris. É uma perversa masculinidade: o que significa ser mais masculino do que os outros homens, se você é macho? Essa educação viril destina-se a separar o macho das capacidades humanas. O homem deve se tornar um objeto, uma ferramenta, um robô, mas que se move, enquanto a mulher é um monte de órgãos e não deve se mover.

 

FS: Você diz que essa educação viril só pode levar a uma "paródia do sexo" e torna os homens inválidos emocionalmente. Poderia explicar?

 

OM: No que se refere aos homens, essa dissociação permite-nos provar à sociedade a eficácia do indivíduo. Transforma o homem em uma máquina telecomandada pronta para o combate, com o máximo potencial destrutivo instantaneamente acionado. Quer você esteja com 90 quilos de músculo, ou se você é pequeno, você tem que ser capaz de se tornar perigoso instantaneamente, desde o início, até o máximo de suas capacidades.

 Cobrimos tudo isso com propósitos "nobres": precisamos proteger a família, precisamos proteger o líder, precisamos proteger a pátria. Claro que não se deve ser perigoso quando não precisa, um militar não deve matar sempre, apenas em certas ocasiões. Como bom cidadão, não posso ser perigoso na minha vida cotidiana, tenho absolutamente de respeitar as leis, não posso matar, não posso roubar. Mas se há necessidade, eu devo estar imediatamente acima da lei, acima da sensibilidade humana, incapaz de sentir qualquer emoção enquanto corto um inimigo em pedaços. Essa separação entre os efeitos e os atos é conseguida através de um trabalho hábil de perversão. Para produzir um choque violento na vida de um indivíduo, algo deve ser feito que coloque sua vida em risco. Mas ainda melhor, sofrer agressão sexual esgarça a personalidade. A sexualidade é um nó górdio do Eu íntimo, que qualquer coisa que a toque agressivamente causa choques violentos. Qualquer choque violento vai dissociar o indivíduo — já sabemos, é um mecanismo de defesa: pode-se não estar lá, ausentar-se mentalmente, para não continuar sofrendo. Há agora um vocabulário extremamente preciso, uma semiologia fina, que define essa síndrome pós-traumática, com amnésia traumática, dissociação etc.

 

FS: Você diz que esses comportamentos masculinos violentos, ligados a esta dissociação emocional, são o resultado de choques traumáticos que são sistematicamente infligidos a meninos como treinamento?

 

OM: Absolutamente. Muitas vezes, uma sucessão de eventos, um acúmulo de circunstâncias traumáticas, que leva a esse resultado. Em algumas sociedades, seremos muito violentos e muito explícitos. Os espartanos da Grécia Antiga praticavam todo o tipo de agressões sexuais contra crianças, costumes que eram oficialmente reconhecidos como um modo de vida. Mas mais frequentemente, informalmente, há muitos outros ataques que se mantém em fases sucessivas, e se os homens pudessem sair de sua própria negação, falariam de todos os atos de violência, incluindo a violência sexual, que sofreram. Vamos dar um exemplo muito simples, porque agora todos os rapazes estão submetidos à pornografia. A primeira vez que um rapaz vê pornografia, é um choque violento, é um verdadeiro ataque sexual. Então, de repente, os órgãos sexuais que são coisas preciosas e incompreensíveis, e que normalmente são escondidos porque é uma porta que leva a si mesmo, são mostrados, monstruosos, rasgados, separados, como se você estivesse entrando dentro de uma enorme ferida, como se você estivesse entrando dentro de um corpo. Oficialmente, nada aconteceu, ele apenas ligou a TV ou o celular. E muitos atos são apresentados como jogos, cuidados, iniciações lúdicas que são normalizadas em nossa sociedade e, na verdade, são agressões. Sem falar nos atos diretamente pedo-agressivos, cuja frequência é cada vez mais percebida apesar da escandalosa "omerta social".

 

FS: Mas a objeção que se pode fazer é que as meninas sofrem muito mais agressões sexuais do que os rapazes (cerca de 80% das agressões sexuais contra menores são contra meninas) (1). Elas não estão apenas expostas a vídeos pornográficos, mas são submetidas a demandas pornográficas de rapazes e homens. No entanto, não reagem como eles, transmitindo a violência que sofrem e tornando-se carrascas - porque a única opção que lhes é oferecida é identificar-se com as vítimas. Por isso, não é só porque são atacados que os meninos se tornam carrascos, é porque se tornarão dominantes, o que significa que terão a opção de violar os dominados. Como tal, as mulheres não têm escolha. Elas experimentam um nível de agressão muito mais alto, mas não se tornam executoras.

 

OM: Claro. O que desenvolvo é que desde a primeira fase da segregação, a desigualdade opressiva é essencial. Os números, como vocês se lembram, mostram que as meninas são alvo desses ataques cerca de quatro vezes mais que os meninos, na proporção de 80% de meninas em relação aos meninos. Então a menina se tornará mulher, mas será sempre uma sobrevivente. Ela está designada a ser vítima na vida. As dissociações resultantes de agressões sexuais expõem seu corpo e o explodem como cacos de espelho. Separam seus membros e órgãos um do outro. Há uma divisão sexista do corpo feminino, como se a vagina fosse separada do útero, do peito, das pernas etc.

O homem sofre um recorte menor. Por um lado, tem o seu corpo, do qual pode estar mais ou menos orgulhoso, que se destina à sociedade, e por outro lado, o seu sexo, que é um tipo de arma que lhe pedem para usar como arma destrutiva, em especial no corpo das mulheres. E esta designação a exercer violência sexual contra as mulheres é o que lhes dá o direito de serem torturadores pelo resto de suas vidas. Estupro fica escrito como ‘marca d'água’, subentendido em todos os seus pensamentos. É isso o que lhes dá a certeza do reconhecimento como viris por outros viris. A violência sexual é variável em intensidade e de impactos imprevisíveis. O estupro é um assassinato perfeito: o do espírito. Mas, ataques repetidos de menor intensidade destrutiva podem causar distúrbios graves. É ainda quase impossível de avaliá-los. Nenhum estudo leva em conta a violência, cada vez mais enterrada no subconsciente e na negação. Mas, eu não acho que haja fumaça sem fogo. A destruição mental considerável e generalizada em todos os setores da nossa sociedade sexista não é por acaso. Os cursores são para cada um variável e dependem do histórico individual. As pessoas minimizam o que experimentaram. Dizem que não foi tão grave. Interrogatórios em estudos de morbidade por violência sexual são distorcidos pela negação.

 

FS: Por outro lado, você escreve: "Recuso-me a suportar a vergonha de ser homem, de ser um sexo destrutivo e criminoso. Recuso-me a ter um sexo armado, um instrumento feito (...) para conquistar, subjugar e dominar, recuso-me a ser obrigado a ser um matador, um tirano, dono de escravos e carrasco desde a primeira infância. O viril semeia horror e miséria ao seu redor." John Stoltenberg intitulou um de seus livros "Recusando-se a ser um homem". Você concorda com essa recusa? Quais são as consequências práticas de ser "traidor do seu sexo", em termos de mudar seu comportamento e em relação aos viris?

 

OM: Stoltenberg, os seus primeiros livros, todo homem deveria lê-los. E recusar ser homem é minha escolha. Não quero mais viver com vergonha ou remorso. Quero ser capaz de viver livre, e ao mesmo tempo recuperar meu corpo e meu sexo, desapropriado pelo sistema viril. Existe uma espécie de separação entre o homem, que poderia ser "pensante", sábio, puro, do qual pode se orgulhar, e o seu sexo, horror, que carrega o demônio. Diante desse dualismo divisionista, meu desejo de ser homem é de ser um homem inteiro, de achar meu sexo como um mero órgão do meu corpo, cujo uso ninguém tem que me prescrever - posso não usá-lo. E eu quero ser capaz de dar a vida, não dar a morte. Quero dar a minha vida a uma causa, não a minha morte a uma causa. Quero poder compartilhar meu amor pela vida com a pessoa que amo. Quero amar minha esposa, como mulher, irmã, amiga, amante e igual. Quero que ela esteja viva, falando, sorrindo, cantando, não quero que esse tipo de raiva, que está dentro de mim, que me inculcaram, que faz os homens quererem devorar, cortar, rasgar, penetrar, aterrorizar, organize nosso relacionamento — porque isso é o que colocaram em nossas cabeças. Eu tentei circunscrever isso, como se eu tivesse um inferno em mim, mas sei que foi colocado em mim, e que precisa pouco para que esses condicionamentos sejam reativados, como precisa pouco para os eliminar. Quando você vê um grupo de meninos, tem sempre um olhando uma flor no caminho. E isto é proibido, precisa pouco para que um rapaz se torne um ser humano, novamente. É preciso sofrer uma pressão constante, o tempo todo, para se manter um viril.

 

FS: Você diz: "Como os pobres se enganam ao se vingar do judeu pela miséria que o homem rico lhes causou, o pequeno macho sobrecarregado pelas dificuldades da masculinidade vai atacar as mulheres." A misoginia - piadas sexistas, discussões entre homens sobre pornografia, gabar-se das "façanhas sexuais" etc - em sua opinião, é um lugar essencial para a união masculina “male bonding” [i] e a construção do poder masculino?

 

OM: Claro que é um discurso, uma linguagem, uma língua viril. Esta língua viril, a temos por falá-la e o que nos transmite deve nos impregnar o tempo todo. Assim como se toma café da manhã, se deve reafirmar sua misoginia, homofobia, todas as manhãs. É um vício e esse vício é parte da natureza viril. Você tem que tomar uma bebida antes de ir para o combate. Misoginia é uma maneira de recuperar sua masculinidade. Nesta culinária orientada para a língua, devemos adicionar proselitismo a comportamentos perigosos, à violência suicida. O herói viril está sozinho diante da morte e será sua maneira de morrer que encantará a multidão. A isto, podemos acrescentar a indiferença cínica, está muito na moda, mais xenofobia e racismo. Tudo isto faz parte da cultura viril. No centro desta cultura viril está a cultura do estupro. Retalhar um corpo feminino, penetrá-lo é central, fundamental para a virilidade como instilada nas mentes de todo homem. Esses discursos misóginos que os viris trocam, permitem reconhecer uns aos outros, fazer grupo, identificar as ovelhas vacilantes do rebanho para observá-las, e isto faz parte da formação de todo homem.

 

FS: E faz um vínculo muito forte...

 

OM: Muito forte, mas não tão forte, ao mesmo tempo, pois deve ser constantemente retecido. Se pudéssemos suspender a formatação viril, ela mostraria sua fraqueza. E é isso que me mantém esperançoso.

 

FS: Na verdade, no patriarcado, deve-se dizer repetidamente que as mulheres são inferiores — mas se fossem realmente inferiores, não teríamos que repetir isso o tempo todo.

 

OM: Exatamente. E os homens devem ser sempre informados de que são superiores. Caso contrário, abandonariam o processo. Na rua, você pode ver pessoas que abandonaram esse assunto, um jovem e uma jovem andando de mãos dadas. Então, dizemos: O que está acontecendo? É algo que dá a impressão de uma igualdade insustentável. A sociedade sexista oferece-lhes um Dia dos Namorados comercial para os fazer esquecer este precioso momento.

FS: Vamos falar sobre o controle patriarcal dos corpos das mulheres. Você diz que, desde o nascimento, a sociedade patriarcal exige que a menina "adore a maternidade". As nações patriarcais precisam de "filhos da pátria" para alimentar os exércitos do patriarca dominante. Considera que a maternidade, "o único estatuto de poder real para as mulheres nas sociedades arcaicas", é ao mesmo tempo central para manter a sua subordinação?

 

O.M.: Mais uma vez, com certeza. Para mim, sua pergunta contém a resposta. É sempre o mesmo princípio da perversão. A maternidade é uma experiência de extrema violência, mas também é uma das grandes experiências da vida, um momento especial de dom, de busca do absoluto e da gênese do outro. É ainda algo incrível, quer se trate da maternidade de um gato ou de um ser humano. Mas a maternidade "machista", é uma maternidade desviada de sua função de amor, há esse recorte do corpo feminino: o útero é tão magnificado que, atrás, já não vemos a pessoa. As mulheres desaparecem por trás de seu útero, este órgão destinado a ser fertilizado e que deve ser preenchido tão logo esvaziado. É assim que as mulheres são coisificadas e é um modo muito eficaz de destruição, porque quanto mais filhos ela tiver, mais será escravizada. A espécie humana não tem de passar de 1 bilhão para 10 bilhões em poucas décadas, não deve se desenvolver ao ponto de impedir, aos outros, de o fazer. Por que uma mulher faria 6 filhos?

 

FS: Porque ela e/ou seu marido são católicos?

 

OM: Por exemplo. Ou qualquer outra religião. A sociedade sexista não precisa realmente de religiões, mas é melhor com as religiões pois permitem encobrir um pouco o sexismo, e isso é ainda mais eficaz porque se traveste com todo tipo de roupagem enganadora.

 

FS: Você é médico e menciona no seu livro algo que nunca tinha ouvido falar: você diz que a dor no parto pode deixar um SSPT [ii]. E claro, você nota a hipocrisia do discurso que visa apresentar o parto como um momento de felicidade pura, "idílica e ensolarada", apagando o sofrimento e afirmando como auto evidente a noção essencialista de instinto materno. O senhor pode nos contar sobre esse fenômeno do TEPT [iii], que não está sendo mencionado e que parece tabu?

 

OM: Sim, há um enorme tabu. Quando falo da primeira fase, da submissão do bebê ao desejo devorador da mãe, podem pensar: "Eis outro cara que culpa as mulheres! Se o garoto é ruim depois, é porque a mãe foi ruim." Mas não é isso. Na verdade, acho que se deixássemos as mulheres em paz, elas deixariam de ter medo. Elas não teriam que ostentar o filho como um escudo, um cetro. Há violência extrema no parto e acho que ninguém pode realmente mudar isso. Você pode reduzir as consequências dolorosas — e isto é ótimo — mas é um "momento de guerra" de qualquer maneira. Quando vi um nascimento, pela primeira vez, e depois os outros partos que pude ver, foi uma guerra, toda vez. Felizmente, uma guerra vencida, no final, mas isso, como todas as guerras, pode deixar danos colaterais. Estes podem ser graves para ambos os lados, tanto para as mães, quanto para os bebês. Você tem que ver as caras dos bebês quando nascem: boxeadores no fim da luta. O que uma mulher sofre para dar à luz é assustador: essa expansão do sexo feminino, essas contrações doloridas traumatiza todas as testemunhas. Não posso deixar de pensar no que essas mulheres estão experimentando, como elas se sentem, e, antes de mais nada, no sofrimento mesmo com a peridural. Espero que um dia encontremos melhores práticas, e se houvesse um pouco mais de investigação sobre isso, encontraríamos melhor. Com esses sofrimentos, deve ter sensação de morrer, porque todo nascimento é, de certa forma, uma morte, não apenas fantasmática: as mulheres arriscam suas vidas dando a vida.

 

FS: São coisas das quais não se fala. As mulheres devem absolutamente continuar garantindo seu papel de reprodutoras... Os discursos verídicos, realistas sobre o parto são censurados...

 

OM: É verdade. Tudo isso pode ter um sério impacto no bebê e na mãe. Além das estruturas atuais de nossa sociedade, há uma espécie de infantilização da mulher quando está grávida, e essa infantilização é mesclada com desprezo e agressividade. Quando as mulheres falam sobre a gravidez, o parto e as fraldas, todas as vezes - especialmente na primeira vez, quando há mais sofrimento. Elas contam histórias repugnantes, histórias de negligências e hipocrisia. Obviamente, algo repugnante aconteceu nas relações humanas que experimentaram nesse período. Há muito trabalho a ser feito a partir desse ponto de vista e, claro, o discurso oficial é de negação. Nós impomos às mulheres um discurso que é um pouco parecido com o usado pelos ‘peludos’ de 14-18 quando voltaram da guerra: "Nós vencemos, estamos felizes, olha, eu saí vivo! Então, nada aconteceu. Ou dizemos que é como uma guerra muito dura, mas vencemos e a guerreira se encheu de medalhas. Há todo um discurso sobre essa ferida profunda que é o fato de colocar uma criança no mundo: a dificuldade para dormir, a exaustão, a depressão, as lágrimas, a ansiedade, esses comportamentos inadequados, às vezes, de recusa, medo, pânico. Tudo isso, todos os médicos veem, as parteiras veem, as enfermeiras veem. E ainda é negado ou subestimado: "É baby blues". Você pinta de azul ou rosa: "É o mal, bom: Você vai se recuperar, nós esquecemos, a prova é que fazemos outros", etc. Essa negação desdenhosa obscurece completamente as consequências traumáticas, que são tão sérias, e não cuidamos delas deixando a mulher sozinha gerenciar esses impactos psicológicos. Então, o marido entra em cena. Ele não sabe o que fazer. Ele se sente totalmente desamparado diante da situação, nulo porque foi tornado nulo por uma educação "desempática", onde é melhor jogar bola ou brincar de guerra do que enfrentar a realidade da vida. Então, ele será totalmente desclassificado. Este retorno à casa do casal com o bebê nos braços, perturba e não queremos ver. Fragilizar a mãe pode atrapalhar o vínculo com o bebê.

 

FS: Quais você acha que são as razões para o controle patriarcal obsessivo do corpo feminino e do útero (criminalização do aborto)? O que você acha da atual onda de re-penalização do aborto por regimes populistas?

 

OM: É inevitável. Democracias — a democracia, em princípio — não é uma coisa boa para o sexismo. Dar direitos civis a cada indivíduo em uma sociedade é extremamente perigoso. Quer se trate de teocracia islamista, de governos estilo Trump ou Xi Jinping, do Brasil à China popular, todas as sociedades são, por definição, sexistas. O populismo vitorioso é um retorno ao sexismo descarado. O sexismo, como vimos, recorta os corpos das mulheres em pedaços — seios, nádegas, vulva, etc. — e isso é especificamente a maneira como a prostituição e a pornografia funcionam. Este recorte preciso permite aos viris de se servirem da carne das mulheres e devorá-las e, ao mesmo tempo se sujar, profanar ainda mais com essa devoração canibal desprezível. Vamos recortar as peças boas! Os braços, as costas, as pernas, isso é para que funcione na fábrica ou nos campos e para fazer a faxina quando chegar em casa. O útero é para fins da reprodução da espécie e para a grandeza da pátria. É preciso um estrito controle sobre a fertilidade feminina para que se perpetue o poder masculino. O IVG [iv] é uma rejeição desta imposição. É uma rebelião aberta contra o populismo e as ditaduras; uma ditadura não pode deixar as pessoas livres, deixar que as mulheres decidam suas gravidezes, seus corpos. IVG é um ato revolucionário.

 

FS: Lembro de uma frase de Jean-Marie Le Pen, ele disse, em essência, que essa história de "meu corpo é meu" é uma ficção: na verdade "o corpo das mulheres não é delas, pertence à nação e à natureza "...

 

OM: Sim, porque há um propósito para a sociedade sexista, não é só para destruir mulheres, ou os jovens que são enviados para morrer nos campos de batalha - isso são meios, apenas. O propósito da sociedade sexista é permitir que, um pequeno número de hiperpoderosos, obtenha a vida eterna. É preciso não morrer, ou renascer, ou sobreviver na sua descendência. Pelo menos, devemos transmitir aos filhos o que recebemos do pai. O transumanismo, a clonagem, como as linhagens reais dos antigos regimes e, até mesmo, a nossa herança como instituição social procedem dessa mesma vontade, é o grande combate. A primeira história escrita é a lenda de Gilgamesh, e é a história de um rei que queria a vida eterna. Esse é o propósito: se fazer Deus. É uma questão de subir ao topo da pirâmide humana para poder separar-se dela e voar na glória da eternidade divina.

 

 


 

Referências:

 

https://www.lci.fr/social/violences-sexuelles-sur-mineurs-en-france-des-chiffres-tres-sous-estimes-2103628.html

http://haut-conseil-egalite.gouv.fr/violences-de-genre/reperes-statistiques

http://www.leparisien.fr/faits-divers/19-700-mineurs-victimes-de-violences-sexuelles-en-2016-dont-78-de-filles-12-01-2018-7498068.php

 

https://blogs.mediapart.fr/muriel-salmona/blog/060316/lenquete-les-representations-des-francais-e-s-sur-le-viol-et-les-violences-sexuelles-le-regne-du

 

 


[i] “male bonding” Vínculo, amizade entre homens (N. da T.)

[ii]  SSPT- Syndrome du Stress Post Traumatique (N. da T.)

[iii] TEPT – Transtorno do Estresse Pós-traumático (N. da T.)

[iv] IVG - Interrupção Voluntária da Gravidez (N. da T.)