quarta-feira, 19 de julho de 2023

ABUSO SEXUAL de Jacques e Claire Poujol, conselheiros conjugais e familiares

Compreender melhor o abuso sexual, suas consequências e como ajudar a vítima a sair da repetição. Sair [da repetição, da sideração, da dissociação, da paralisia. De vítima à sujeito de direitos!] O artigo que segue foi inicialmente escrito por Jacques e Claire Poujol, conselheiros conjugais e familiares, para o uso de terapeutas, psis e conselheiros. Útil para todos os profissionais da ajuda (assistentes sociais, médicos, etc.) mas, também, para as próprias vítimas, este texto permite compreender melhor o abuso sexual, suas consequências e como ajudar a vítima a sair da repetição. [Eu, tradutora, Mirian Giannella, vou me inserir no texto entre chaves, para acrescentar.] Que o saiba ou não, algum próximo seu já sofreu e se tornou vítima de abuso sexual. E se for um psi, perceberá logo que várias dificuldades de muitas pessoas encontram aí a sua origem. Para estes homens e mulheres mortificados, haverá sempre o “antes” e o “depois” do abuso. A nossa sociedade prefere ignorar este problema, atenuar a gravidade, ou mesmo nega-la totalmente. Ou então, cheia de boa vontade, mas também de incompetência, propõe-se às vítimas “soluções” que fazem apenas agravar o traumatismo sofrido. Respondemos neste artigo às perguntas: • O que se entende por abuso sexual? • Por que a vítima tem tanta dificuldade para falar do que sofreu? • Quais estragos o abuso sexual provoca? • Como ajudar a vítima a sair da repetição? • Quem são os abusadores? O que se entende por abuso sexual? 1. Um constrangimento ou um contato Um abuso sexual é qualquer constrangimento (verbal, visual ou psicológico) ou qualquer contato físico, por qualquer pessoa que se serve de uma criança, adolescente ou adulto, com o propósito de uma estimulação sexual, a deles ou a de uma terceira pessoa. Contato físico é, certo, mais um grave que um constrangimento verbal. Mas é necessário saber que qualquer abuso constitui uma violação do caráter sagrado e da integridade da pessoa humana e provoca sempre um traumatismo. O constrangimento verbal designa: uma solicitação sexual direta; o uso de termos sexuais; a sedução sutil; a insinuação. Tudo isto em relação a uma pessoa que não o deseja ouvir. O constrangimento visual refere-se: ao emprego de material pornográfico; ao olhar que insiste sobre certas partes do corpo; ao fato de se despir, de se mostrar nu, ou de praticar o ato sexual à vista de alguém. Aqui também, sem que a pessoa o deseje. O constrangimento psicológico designa: a violação da fronteira entre o relacional e o sexual (um interesse excessivo pela sexualidade de seu filho/a) ou entre o físico e o sexual (lavagens repetidas; um interesse muito marcado pelo desenvolvimento físico de um adolescente). O contato físico pode ser: bastante grave (beijar, contato do corpo através das roupas, que seja pela força ou não, com ou sem pressão psicológica ou afetiva), grave (contato ou penetração manuais; simulação de relações sexuais, contato genital, com ou sem violência física), ou muito grave (violação genital, anal ou oral, obtida de qualquer maneira que seja, pela força ou não). 2. A estratégia do abusador Um abuso não é o fato do acaso por parte de quem o comete. Sendo um perverso, este premedita e organiza a relação esperando o momento em que seus fantasmas viciosos lhe parecerão realizáveis. A vítima ignora naturalmente tudo isto. A estratégia perversa comporta em geral quatro etapas: a. O desenvolvimento da intimidade e do caráter confidencial, privilegiado, da relação. Esta fase, mais ou menos longa (de algumas horas ou anos), visa a colocar em confiança a futura vítima que não duvida de nada. b. Uma interação verbal ou um contato físico aparentemente “adequado” com a pessoa que vai ser abusada (confidências de caráter sexual, carícias nos cabelos, abraços amigáveis). A pessoa não tem medo, por que: em 29% dos casos, seu futuro abusador é um membro da família, em 60% dos casos um familiar ou amigo. Apenas 11% dos abusos são cometidos por um desconhecido. c. Uma interação sexual ou um contato sexual É a fase do abuso propriamente dito. Aqui, a vítima reencontra-se na mesma situação que um coelho que atravessa uma estrada à noite e é capturado pelos faróis de um automóvel: petrificado, paralisado, siderado, incapaz de reagir, deixa-se esmagar pelo automóvel. O abusador está consciente do que faz com sua vítima. d. A continuação do abuso e a obtenção do silêncio da vítima pela vergonha, culpa, ameaças ou privilégios. Este silêncio raramente é quebrado. O abuso permanece um segredo absoluto durante muito tempo, às vezes por toda a vida. Três sobreviventes das irmãs Dionne, as famosas quíntuplas canadenses, esperaram os sessenta e um anos para revelar, na sua biografia, que tinham sido sexualmente agredidas pelo pai. Guardando o silêncio, a vítima faz-se, contra a sua vontade, de cúmplice do abusador, uma vez que a única coisa que ele teme é de ser denunciado. O fato de tornar-se assim, bem involuntariamente, seu aliado, reforça o desprezo que tem por si própria e a sua culpabilidade. Será uma das tarefas do psi explicar que uma pessoa sexualmente abusada não é nunca culpada nem responsável pelo abuso. Não podia adivinhar que as duas primeiras etapas eram apenas uma estratégia do abusador. Deverá também dizer-lhe que uma pessoa que está sob a dominação de um abusador só faz parar os abusos com a denúncia e revelando o que sofreu. Ora, falar, para ela, é muito difícil, por várias razões. Por que uma vítima tem tanta dificuldade em falar do que sofreu? 1. Leva, às vezes, muito tempo para realizar que foi abusada O tempo não conta para o inconsciente, ele está como que parado para a vítima: é, na maioria das vezes, o aparecimento de sintomas como depressão ou perturbações sexuais que a levará a deixar o seu sofrimento emergir na superfície e aceitar falar. É o primeiro passo para a cura. Mas falar deste traumatismo, tomar consciência desta verdade: “Fui abusada”, pode ser um choque terrível. O conselheiro terá necessidade de tato e de grande compaixão para deixar a pessoa descobrir por si mesma e no seu ritmo, a amplitude do drama que viveu. Compreenderá a extrema repugnância que provoca admitir que o seu corpo e a sua alma foram devastados. Gostaria tanto de esquecer, não ter nunca vivido aquilo, que vai se refugiar ocasionalmente na recusa: “Aquilo não pode ter me acontecido.” A pessoa será incentivada a continuar a falar se acreditarem no que diz (tem absolutamente necessidade de sentir que acreditam nela) e se evitar certas frases destrutivas como: • - Ele cometeu só um erro, como fazemos todos. • - Aconteceu só uma vez, afinal. • - É tempo de virar a página. • - Já faz muito tempo que passou 2. Sente-se culpada Em seu foro íntimo, sem mesmo declarar abertamente, a pessoa pensa: • Sou também culpada? Senti prazer? • Poderia ter evitado? • Colocado na minha situação, um outro teria podido se opor, se debater, fugir? O psi pode ir adiantando as perguntas que não ousa exprimir, dizendo: • Quem detinha o poder (parental, espiritual, moral, organizacional, físico, psicológico)? • Quem era o adulto? O marcador social? O referente? • Quem era o instigador, o organizador dos abusos? • Quem poderia fazer cessar? Pode fazer-lhe compreender que a sua culpabilidade está ligada à defasagem entre a vivência passada (e as razões pelas quais a vítima não pôde impedir: a sua tenra idade, sua ignorância, sua total confiança) e a sua vivência atual, quando já é mais velha, menos ignorante, menos ingênua e já sabe se proteger. Crê-se culpada porque olha os acontecimentos passados com os olhos do adulto prevenido que é hoje. Ora, na época, não possuía as defesas necessárias para impedir o abuso. Separar-se do agressor [É de fundamental importância sair da culpa, perceber que houve crime, invasão de privacidade, abandono e negligência, e aprender que os lugares já estão dados há milênios, no mundo desértico que eles criam, e aprender a se defender e se situar na sua história.] Pode-se também ajuda-la a diferenciar o ponto fraco do qual se serviu o perverso, por exemplo, uma necessidade de ternura completamente legítima, uma confiança cega, e o crime que cometeu, se aproveitando desta necessidade legítima de afeição ou da confiança, para saciar seus desejos imorais. Desligar estes dois elementos é frequentemente um momento de verdade e um alívio para a pessoa, que faz o seu segundo passo para a cura quando não se sente mais responsável. [Nomear o crime, o criminoso e a arma do crime tem o efeito de separar a vítima do agressor e fazer com que a vítima restaure a sua dignidade de pessoa humana. É verdadeiramente reparador!] Mas o caminho será ainda longo até cicatrização da ferida. A precipitação e a impaciência são os grandes inimigos do conselheiro (e do cliente) neste domínio. 3. Falar pode custar-lhe caro Cada vez que a pessoa abusada mergulha no horror do seu passado, deve pagar um preço muito elevado. Tentando “esquecer” o abuso, virar a página, tinha construído certo equilíbrio, por exemplo, com os seus parentes. Se decidir fazer explodir a verdade, vai desorganizar este equilíbrio fictício e suscitar pressões dos parentes. Encontra-se sempre falsos “bons conselheiros” preocupados mais com a sua própria tranquilidade e pelo que dirão, defensores dos abusadores, que vão acusa-la de mentir ou exagerar, de despertar o passado e incita-la-ão a esquecer, ou mesmo “a perdoar”; o cúmulo é que corre o risco até mesmo de ser responsabilizada pelo abuso. [É tradicional a culpabilização das vítimas.] O psi deverá, então, apoiar, incentivar e assegurar a sua proteção material e psicológica. Ajuda-la a avaliar o preço da luta que deverá efetuar para sair do lamaçal do abuso sexual e realizar que o seu desejo de sair do sofrimento será ainda negado por aqueles que deveriam mais protege-la: a família ou os responsáveis pelas instituições. [Ou faze-la militar na área para mudar as circunstâncias e fazer a sociedade agir pela proteção das crianças. Precisamos sim ficar mais ativos contra as indecências que trazemos de priscas eras animalescas. A criança deve ser respeitada na sua integridade física e moral.] É necessário notar que quando o abusador faz parte de uma instituição, qualquer que seja, esta decide frequentemente, por medo do escândalo, “acoberta-lo” e, por conseguinte, permanecer na recusa do abuso, mais do que reconhecer publicamente a existência de um perverso sexual na instituição. [Mas, estamos vendo muitos padres se demitindo e sendo processados. É um avanço do Estatuto da Criança e do Adolescente! Mas é verdade que a cultura é permissiva para com os crimes sexuais!] Há um consenso social de reprovação à pessoa que tem a coragem de remexer nestas coisas imundas: que ela continue como morta viva, não é grave. O mais importante, é que se cale. 4. Sofre de vergonha Sartre disse que a vergonha é “a hemorragia da alma”. Um abuso sexual marca a pessoa a ferro e fogo, a suja, a leva a esconder-se dos outros. A vergonha é uma mistura de medo da rejeição e cólera para com abusador, que não ousa se exprimir. [Sente-se culpada pelo crime até nomear o crime, o agressor e a arma do crime. (N. da T.)] O sentimento justo que deveria provar é a cólera. Provar este sentimento liberador ajuda-a a sair da vergonha. É necessário, às vezes, tempo para que chegue a exprimir a sua indignação face à injustiça que sofreu. Esta expressão da cólera poderá fazer-se seja de maneira real, frente ao culpado, ou, se não for possível para a sua segurança pessoal, de maneira simbólica. Em todos os casos cabe à vítima decidir. A vergonha está ligada ao olhar que a vítima leva sobre si própria; vê-se como suja por toda a vida. É o seu olhar sobre si mesma que deverá se alterar, e isto alterando a sua maneira de pensar. 5. O desprezo Sentindo-se envergonhada, a pessoa abusada tem duas soluções: desprezar-se a si própria ou desprezar o abusador e os semelhantes. Nos dois casos, o resultado é o mesmo: autodestruição, porque o ódio de si ou o ódio do outro são ambos destrutivos. O desprezo por si própria pode referir-se ao seu corpo, a sua sexualidade, a sua necessidade de amor, a sua pureza, a sua confiança. Este desprezo de si tem quatro funções: atenua a sua vergonha, asfixia as suas aspirações à intimidade e à ternura (desprezar-se anestesia o desejo), dá-lhe a ilusão de dominar o seu sofrimento e evita-lhe que procure a cura do seu ser. Quando o desprezo por si mesma é muito intenso, pode levar à bulimia, à violência contra si e ao suicídio; nestes três casos, a pessoa pune o seu próprio corpo porque ele existe e tem desejo. 6. O verdadeiro inimigo Se perguntar a uma pessoa que sofreu um abuso sexual qual é o seu inimigo, responderá sem dúvida: “É o culpado do abuso.” O que lhe parece evidente. A vítima tem escolha: ou combate, cultivando o seu ódio para com o abusador, ruminando uma vingança contra ele; ou foge, procurando esquecer, endurecendo-se para não mais sofrer, fechando-se em si mesma, passa a ser insensível, de maneira a não mais sentir nem emoção nem desejo. Mas estas duas soluções são vãs, porque o inimigo não é o abusador. Certamente, representa um problema, mas a boa notícia é que não é o problema essencial. O verdadeiro adversário é a determinação da pessoa em permanecer no seu sofrimento, a sua morte espiritual e psíquica e a recusar voltar a viver. O inimigo reside, por conseguinte, paradoxalmente, na própria vítima! Este terceiro passo para a cura é sem dúvida o mais difícil de cruzar. A pessoa deve compreender que tem na frente dela a vida e a morte, e que pertence apenas à ela permanecer na morte ou escolher viver. Quando o conselheiro sente que ela tomou a decisão de sair da pulsão de morte para entrar na pulsão de vida, terá então sem dúvida a ocasião de lhe falar dos três grandes estragos que o abuso produziu na sua vida e que deverão ser reparados. 7. O sentimento de impotência O abuso sexual foi imposto à vítima. Que tenha se produzido uma vez ou cem vezes, com ou sem violência, não altera o fato de que foi privada da sua liberdade de escolha. Os estragos produzidos pelo abuso sexual Estes estragos constituem umas torrentes tumultuosas que devastam a alma, e que inclui: o sentimento de impotência, o de ter sido traída e o sentimento de ambivalência, bem como vários outros sintomas. O sentimento de impotência O abuso sexual foi imposto à vítima. Que tenha se produzido uma vez ou cem vezes, com ou sem violência, não altera em nada o fato de que foi privada da sua liberdade de escolha. Este sentimento provem de três razões: Não pôde alterar a sua família disfuncional, se se trata de um incesto. Os seus parentes não a protegeram como deveriam, a sua mãe ou a sua sogra nada viram ou fingiram nada ver. Que o abuso tenha sido acompanhado de violência ou não, que tenha havido dor física ou não, a vítima não pôde escapar, o que cria nela fraqueza, solidão e desespero. Além disso, o culpado serve-se da ameaça ou da vergonha para reduzir ao silêncio e recomeçar em toda impunidade, o que aumenta a sua impotência. Não chega a pôr um termo ao seu sofrimento presente. Só a decisão de suprimir-se anestesiaria a sua dor, mas não pode se resolver, então continua a viver e a sofrer. b. Este sentimento de impotência provoca graves prejuízos A pessoa abusada perde a consideração por si própria, duvida dos seus talentos e crê-se medíocre. Abandona qualquer esperança. Insensibiliza a sua alma para não mais sentir a raiva, o sofrimento, o desejo ou a alegria. Esconde e repele no seu inconsciente as lembranças horríveis da agressão sexual. Pela força de renunciar a sentir a dor, torna-se como morta. Perde o sentimento de existir, parece estrangeira a sua alma e a sua história. Perde o discernimento relativo às relações humanas, o que explica que as vítimas de abusos recaem constantemente nas garras de perversos, o que reforça o seu sentimento de impotência. 2. O sentimento de ter sido traída Muitas pessoas ignoram o nome dos onze outros apóstolos, mas conhecem Judas, o traidor. Por quê? Porque a maior parte das pessoas considera que nada é mais odioso do que ser traído por alguém que se supunha amigo e respeitoso. A pessoa abusada sente-se traída não somente pelo abusador em quem tinha confiança, mas também pelos que, por negligência ou cumplicidade, não intervieram para fazer cessar o abuso. As consequências da traição são: uma extrema desconfiança e a suspeita, sobretudo em relação às pessoas mais amáveis; a perda da esperança de ser próxima e íntima de outro e de ser protegida no futuro, visto que os que tinham o poder não o fizeram; a impressão que se foi traída, foi porque mereceu, devido a uma falha no seu corpo ou no seu caráter. 3. O sentimento de ambivalência Consiste em sentir duas emoções contraditórias ao mesmo tempo. Aqui, a ambivalência gravita ao redor dos sentimentos negativos (vergonha, sofrimento, impotência) que simultaneamente, às vezes, foram acompanhados de prazer, que seja relacional (um cumprimento), sensual (uma carícia), ou sexual (tocar nos órgãos), nas primeiras fases do abuso. O fato que o prazer, às vezes, seja associado ao sofrimento provoca prejuízos consideráveis: a pessoa sente-se responsável por ter sido abusada, já que “houve” prazer; a lembrança da agressão pode retornar nas relações conjugais; não chega a desabrochar-se na sua sexualidade que é para ela demasiado ligada à perversidade do abusador; controla e mesmo proíbe-se o prazer e, por conseguinte, o seu desejo sexual. O conselheiro deve explicar à pessoa que não é responsável por ter sentido prazer, porque é normal que apreciou as palavras e os gestos “de ternura” do abusador. É a natureza que deu ao ser humano esta capacidade de sentir prazer. O que não é normal é a perversão dos que premeditaram estas atitudes afetuosas para fazer cair uma presa inocente na sua armadilha. É ele o único responsável. 4. Alguns outros sintomas Pensa-se em eventual abuso sexual se o cliente: - Sofre de depressões repetidas. - Apresenta perturbações sexuais: falta de desejo, asco, frigidez, impotência, temor ou desprezo pelos homens ou mulheres, medo de casar-se, masturbação compulsiva. Na criança, esta perturbação do autoerotismo, assim como algumas enureses, podem fazer pensar em abuso sexual. - Destrói-se pelo uso abusivo de álcool, de droga ou de alimento. A obesidade, em especial, permite às jovens ou mulheres que foram violadas se tornar, inconscientemente, menos atrativas e se proteger assim contra outra agressão. - Sofre de dores de barriga, de infecções ginecológicas repetidas. - Um estilo de relação com os outros muito caraterístico: ou é demasiado agradável com todos, ou é inflexível e arrogante, ou por último é superficial e inconstante. Ajudar a vítima a voltar à viver Esta deverá cessar de ouvir as vozes internas que a mantém na culpabilidade e vergonha e se pôr à escuta da voz da verdade, que a conduzirá para a libertação. Deverá também abandonar as vias sem saídas que pessoas bem intencionadas, mas incompetentes (das que ajudam “pouco ajudadas”!) lhe propõem: negar o abuso, minimizá-lo, para esquecer, para perdoar o culpado sem que este se arrependa seriamente, para virar a página, para parar de reclamar, etc. A via que leva ao bem-estar compreende duas etapas: olhar a realidade de frente, e decidir viver. 1. Olhar a realidade de frente A pessoa deverá reencontrar as lembranças do abuso, admitir os estragos e gradualmente sentir os sentimentos adequados. [Momento de turbilhão, difícil sentir sentimentos adequados, realizar o abuso que não se tinha noção de que era crime, uma violação da integridade física e psíquica de indefeso, covardia da grossa! Há um medo da vingança. Mas a vingança é a denúncia. E sem denúncia não se separa da culpa, que deve recair sobre o criminoso. Sem criminoso, a vítima fica identificada com o agressor se auto-agredindo si mesma. Por isto é tão importante denunciar. Sem nomear o crime, o criminoso e a arma do crime, a vítima continua vítima. E O Pacto do Silêncio e da desautorização e exclusão da vítima como louca reina absoluto e ela não recebe nada, dela só lhe é tirado, não recebe a transmissão de como se defender e defender os seus direitos. Há laissez-faire, cumplicidade, impotência, anuência, complacência... ] a. Reencontrar as lembranças do abuso A vítima prefereriria esquecer, tanto a enoja ou a terrifica. Ou então, fala friamente como se fosse de uma outra pessoa que se trata. Mas, esta recusa é um obstáculo à cura. O abuso não deve ser apagado, mas nomeado. Assim, com muito tato, incentivar a lembrar do passado, às vezes muito remoto, porque só um abcesso esvaziado pode cicatrizar. O retorno das lembranças repelidas vai se fazer progressivamente durante a psicoterapia. O inconsciente da pessoa colabora ativamente por meio de sonhos, ou imagens que lhe vem ao espírito. Certos acontecimentos fazem também reaparecer os traumatismos esquecidos, por exemplo: um encontro com o abusador, uma gravidez, a menopausa, um outro abuso, o fato de que um de seus filhos atinja a idade que tinha quando foi abusada, o fato de reencontrar-se nos lugares da agressão, ou o falecimento do culpado. b. Admitir os estragos [É devastador!] Este regresso penoso no passado vai permitir-lhe admitir as duras verdades seguintes: • Fui vítima de um ou vários abusos sexuais. É um crime contra o meu corpo e contra a minha alma. • Sendo vítima, não sou responsável deste crime, que só pude sentir. • Em consequência destes abusos, sofro de sentimentos de impotência, de traição e de ambivalência. • O meu sofrimento é intenso, mas a cicatrização é possível, se admitir que houve ferida. Esta cicatrização levará tempo. • Não devo envolver o meu passado com um véu de segredo e de vergonha; mas também não sou obrigada a falar a qualquer um. c. Sentir os sentimentos adequados [eu aprendi que sentir é uma grande coisa, mas não é tudo. Pois a gente não se vê, só se sente. E para se ver é preciso se colocar no lugar do outro, do abusador no caso, o que causa repulsa, por se ter que realizar o gesto do abusador. Mas é a maneira de entender o crime que aconteceu. Assim, passa pelo olhar do outro e deste nos tornamos tão dependentes. O que segue também acho muita precipitação, mas ouvi Gikovate dizer: A maturidade chega quando a gente pode olhar pro mundo e dizer: Que pena que o mundo é assim...!] A culpabilidade (que é um sentimento de extorsão muito frequente), a vergonha, o desprezo, a impotência, o ódio, o desespero, pela sua própria expressão vão sendo gradualmente substituídos por sentimentos mais amenos que são como a cólera para com abusador e os seus cúmplices, e a tristeza face aos estragos sofridos. Esta tristeza não deve levar à morte, ao desespero, mas à vida, ou seja a uma fé, uma esperança e um amor renovados. O conselheiro favorecerá a expressão destes dois sentimentos, de maneira real ou simbólica, mas sempre em toda segurança, no quadro protegido das sessões de relação de ajuda. 2. Decidir voltar à vida Por que uma vítima de abuso sexual deveria decidir voltar a viver, depois de tudo o que sofreu e sofre ainda? Simplesmente porque é melhor para ela escolher a vida e não a morte. Escolher viver significará para ela: a. Recusar estar morta A vítima acha normal viver com um corpo e alma mortos; paradoxalmente, isto lhe permite sobreviver não se arriscando mais a sentir alegria ou dor. b. Recusar desconfiar A vítima desconfia dos seres humanos. Uma mulher violada, em especial, vê todo “macho” como “o mal”. Deverá aprender a transformar a sua desconfiança para com os homens em vigilância, o que é muito diferente. c. Não mais temer o prazer e a paixão Estes dois elementos a reenviam ao drama que sofreu, então ela foge. Ao faze-lo, priva-se destes dois dons. Sendo vítima do desejo (perverso, mas desejo do mesmo modo) de alguém, “lança o bebê com a água do banho”, ou seja rejeitando o abuso que sofreu, rejeita ao mesmo tempo qualquer desejo, até mesmo o seu. Deve realizar que não é porque alguém teve um desejo perverso para com ela que deve doravante renunciar ao seu próprio desejo. d. Ousar amar de novo Deverá progressivamente renunciar às suas atitudes autoprotetoras e o seu fechamento em si mesma para provar de novo a alegria de amar os outros e de estabelecer relações calorosas e seguras. Deixará a sua carapaça para reencontrar um coração terno, capaz de correr o risco de amar aqueles que encontra. Abandonará as suas defesas, o que não quer dizer que não se cercará de proteções. Uma proteção não é uma defesa. Descobrirá que, se é verdade que uma ou várias pessoas a traíram, a grande maioria é digna de confiança. A revelação do abusador 1. Quem são? Na sua grande maioria são jovens pessoas ou homens provindos de todas as classes da sociedade e de todos os meios. Na maior parte das vezes, fazem parte do ambiente da vítima: um colega, um vizinho, um chefe escoteiro ou um animador de jovens, uma babá, um professor, um proprietário, um colega de trabalho, um padre, etc. Muito frequentemente são também membros da família: o pai, o tio, o avô, o sogro (cada vez mais frequentemente devido ao aumento dos rematrimônios e das famílias expandidas), o irmão, o meio-irmão ou o quase irmão, o cunhado, o primo, etc. fala-se então de incesto ou abuso sexual intrafamiliar. Trata-se, mais raramente, de uma pessoa desconhecida da vítima. É necessário notar que 80% dos agressores foram eles mesmos vítimas de abusos no passado, o que não o desculpa de modo algum, mas pode explicar em parte o seu comportamento. 2. A Revelação Uma vítima tem muita dificuldade para denunciar o seu agressor; revelará mais facilmente o abuso em si. No entanto, esta denúncia tem um grande alcance terapêutico e é necessário incentivar a quebrar o silêncio. Uma vez dito à outro, a palavra torna-se inter-dita e não mais interditada, como queria o perverso. Mas esta denúncia frequentemente é mal aceita pela sociedade. Enquanto uma pessoa sexualmente abusada não denunciar o culpado, é considerada como vítima. Mas o dia em que decide se referir à Justiça, consideram-na então como culpada de acusar alguém, e o crime cometido para com ela vai ser negado. É por isso que, por exemplo, a grande maioria das mulheres violadas, se resignam a permanecer vítimas por toda a vida e, por conseguinte, a calar-se por medo de ser acusada do crime que denuncia. Ora, nunca deveriam hesitar a devolver o peso do crime à quem pertence: ao violador. É necessário, no entanto, saber que, se denunciar tem um efeito terapêutico, o processo judicial é longo, penoso e dispendioso. Os interrogatórios repetidos, a falta de respeito e tato de certas pessoas, a vergonha de revelar a sua história na frente de todos, a impressão de não lhe darem crédito, provocam o que se chama de vitimização secundária. Cada vez que relata a violação, a mulher se sente de novo violada. O apoio, material e psicológico, de organismos especializados na ajuda às vítimas de abusos sexuais, é precioso neste tipo de diligência, tanto mais que o julgamento pronunciado do culpado, na maioria das vezes clemente, parece decepcionante e injusto à vítima e reaviva a sua dor. Se tiver o conhecimento de um caso de abuso sexual, a primeira coisa a fazer é afastar a vítima do agressor, a fim de evitar que este último recomece. No caso específico de abuso sexual sobre menor, a segunda diligência é informar as autoridades competentes (serviços sociais e Conselho Tutelar). A lei obriga a esta revelação, e deve-se, neste caso, quebrar o segredo profissional, senão se corre o risco de ser considerada pela lei como cúmplice. Esta denúncia visa a proteger a vítima e as outras vítimas potenciais, e a obrigar o culpado a parar as suas atuações. As reações do abusador a sua revelação Um recente Colóquio europeu sobre as violências sexuais estabeleceu que 82% dos abusadores não admitem a sua responsabilidade (53% negam totalmente os fatos). Só 18% dentre eles admitem os fatos, e ainda porque são obrigados após confrontação com as vítimas, e não sem a acusar de “te-lo provocado”. Esta negação dos fatos permite-lhes perseverar na sua perversão, e por conseguinte, não se privar do seu gozo, que só conta para eles. Quando não podem mais negar os fatos, admitem-no minimizando ou negando as consequências desastrosas sobre as vítimas, sobretudo se o abuso for isento de violência física. Se tiverem remorso ou se lamentarem, nunca será por seus crimes, mas por ter-se feito denunciar e pelo dever de parar. Se o psi mostrar-se indulgente para com um perverso, porque deseja regrar rapidamente uma situação que o excede ou desagrada, corre o risco de ser manipulado pelo abusador que fará prova de “se arrepender” para continuar em paz as suas atividades viciosas escondidas. Faz-se assim de seu cúmplice, o que é grave. Uma reação possível do culpado de abusos é a seguinte: ele suja e se alia. Suja as vítimas ou outras pessoas inocentes acusando-as do mal que ele mesmo comete; ao faze-lo alivia, assim, a sua culpabilidade. Além disso, alia-se com os que podem se tornar seus aliados e seus defensores (um pai incestuoso alia-se a sua mulher de modo que o deixe abusar da sua filha). Um perverso que é revelado e que recusa se arrepender pode cair no pânico, na depressão, no álcool ou no suicídio; mais frequentemente endurece-se e continua de maneira mais intensa as suas práticas. É extremamente raro que um delinquente sexual arrependa-se realmente, (no máximo exprimirá vagas “lamúrias”), mas é necessário sempre dar-lhe a ocasião. Em conclusão, todo terapeuta deveria se dedicar a formar-se neste domínio tão específico, se quiser se ocupar de pessoas que sofreram deste drama que constitui o abuso sexual. [Ou qualquer crime violento contra a sua integridade física e psíquica] Fonte: Claire et Jacques Poujol - www.relation-aide.com Tradução: Mirian Giannella – http://apoioasvitimas.blogspot.com
Compreender melhor o abuso sexual, suas consequências e como ajudar a vítima a sair da repetição. Sair [da repetição, da sideração, da dissociação, da paralisia. De vítima à sujeito de direitos!] O artigo que segue foi inicialmente escrito por Jacques e Claire Poujol, conselheiros conjugais e familiares, para o uso de terapeutas, psis e conselheiros. Útil para todos os profissionais da ajuda (assistentes sociais, médicos, etc.) mas, também, para as próprias vítimas, este texto permite compreender melhor o abuso sexual, suas consequências e como ajudar a vítima a sair da repetição. [Eu, tradutora, Mirian Giannella, vou me inserir no texto entre chaves, para acrescentar.] Que o saiba ou não, algum próximo seu já sofreu e se tornou vítima de abuso sexual. E se for um psi, perceberá logo que várias dificuldades de muitas pessoas encontram aí a sua origem. Para estes homens e mulheres mortificados, haverá sempre o “antes” e o “depois” do abuso. A nossa sociedade prefere ignorar este problema, atenuar a gravidade, ou mesmo nega-la totalmente. Ou então, cheia de boa vontade, mas também de incompetência, propõe-se às vítimas “soluções” que fazem apenas agravar o traumatismo sofrido. Respondemos neste artigo às perguntas: • O que se entende por abuso sexual? • Por que a vítima tem tanta dificuldade para falar do que sofreu? • Quais estragos o abuso sexual provoca? • Como ajudar a vítima a sair da repetição? • Quem são os abusadores? O que se entende por abuso sexual? 1. Um constrangimento ou um contato Um abuso sexual é qualquer constrangimento (verbal, visual ou psicológico) ou qualquer contato físico, por qualquer pessoa que se serve de uma criança, adolescente ou adulto, com o propósito de uma estimulação sexual, a deles ou a de uma terceira pessoa. Contato físico é, certo, mais um grave que um constrangimento verbal. Mas é necessário saber que qualquer abuso constitui uma violação do caráter sagrado e da integridade da pessoa humana e provoca sempre um traumatismo. O constrangimento verbal designa: uma solicitação sexual direta; o uso de termos sexuais; a sedução sutil; a insinuação. Tudo isto em relação a uma pessoa que não o deseja ouvir. O constrangimento visual refere-se: ao emprego de material pornográfico; ao olhar que insiste sobre certas partes do corpo; ao fato de se despir, de se mostrar nu, ou de praticar o ato sexual à vista de alguém. Aqui também, sem que a pessoa o deseje. O constrangimento psicológico designa: a violação da fronteira entre o relacional e o sexual (um interesse excessivo pela sexualidade de seu filho/a) ou entre o físico e o sexual (lavagens repetidas; um interesse muito marcado pelo desenvolvimento físico de um adolescente). O contato físico pode ser: bastante grave (beijar, contato do corpo através das roupas, que seja pela força ou não, com ou sem pressão psicológica ou afetiva), grave (contato ou penetração manuais; simulação de relações sexuais, contato genital, com ou sem violência física), ou muito grave (violação genital, anal ou oral, obtida de qualquer maneira que seja, pela força ou não). 2. A estratégia do abusador Um abuso não é o fato do acaso por parte de quem o comete. Sendo um perverso, este premedita e organiza a relação esperando o momento em que seus fantasmas viciosos lhe parecerão realizáveis. A vítima ignora naturalmente tudo isto. A estratégia perversa comporta em geral quatro etapas: a. O desenvolvimento da intimidade e do caráter confidencial, privilegiado, da relação. Esta fase, mais ou menos longa (de algumas horas ou anos), visa a colocar em confiança a futura vítima que não duvida de nada. b. Uma interação verbal ou um contato físico aparentemente “adequado” com a pessoa que vai ser abusada (confidências de caráter sexual, carícias nos cabelos, abraços amigáveis). A pessoa não tem medo, por que: em 29% dos casos, seu futuro abusador é um membro da família, em 60% dos casos um familiar ou amigo. Apenas 11% dos abusos são cometidos por um desconhecido. c. Uma interação sexual ou um contato sexual É a fase do abuso propriamente dito. Aqui, a vítima reencontra-se na mesma situação que um coelho que atravessa uma estrada à noite e é capturado pelos faróis de um automóvel: petrificado, paralisado, siderado, incapaz de reagir, deixa-se esmagar pelo automóvel. O abusador está consciente do que faz com sua vítima. d. A continuação do abuso e a obtenção do silêncio da vítima pela vergonha, culpa, ameaças ou privilégios. Este silêncio raramente é quebrado. O abuso permanece um segredo absoluto durante muito tempo, às vezes por toda a vida. Três sobreviventes das irmãs Dionne, as famosas quíntuplas canadenses, esperaram os sessenta e um anos para revelar, na sua biografia, que tinham sido sexualmente agredidas pelo pai. Guardando o silêncio, a vítima faz-se, contra a sua vontade, de cúmplice do abusador, uma vez que a única coisa que ele teme é de ser denunciado. O fato de tornar-se assim, bem involuntariamente, seu aliado, reforça o desprezo que tem por si própria e a sua culpabilidade. Será uma das tarefas do psi explicar que uma pessoa sexualmente abusada não é nunca culpada nem responsável pelo abuso. Não podia adivinhar que as duas primeiras etapas eram apenas uma estratégia do abusador. Deverá também dizer-lhe que uma pessoa que está sob a dominação de um abusador só faz parar os abusos com a denúncia e revelando o que sofreu. Ora, falar, para ela, é muito difícil, por várias razões. Por que uma vítima tem tanta dificuldade em falar do que sofreu? 1. Leva, às vezes, muito tempo para realizar que foi abusada O tempo não conta para o inconsciente, ele está como que parado para a vítima: é, na maioria das vezes, o aparecimento de sintomas como depressão ou perturbações sexuais que a levará a deixar o seu sofrimento emergir na superfície e aceitar falar. É o primeiro passo para a cura. Mas falar deste traumatismo, tomar consciência desta verdade: “Fui abusada”, pode ser um choque terrível. O conselheiro terá necessidade de tato e de grande compaixão para deixar a pessoa descobrir por si mesma e no seu ritmo, a amplitude do drama que viveu. Compreenderá a extrema repugnância que provoca admitir que o seu corpo e a sua alma foram devastados. Gostaria tanto de esquecer, não ter nunca vivido aquilo, que vai se refugiar ocasionalmente na recusa: “Aquilo não pode ter me acontecido.” A pessoa será incentivada a continuar a falar se acreditarem no que diz (tem absolutamente necessidade de sentir que acreditam nela) e se evitar certas frases destrutivas como: • - Ele cometeu só um erro, como fazemos todos. • - Aconteceu só uma vez, afinal. • - É tempo de virar a página. • - Já faz muito tempo que passou 2. Sente-se culpada Em seu foro íntimo, sem mesmo declarar abertamente, a pessoa pensa: • Sou também culpada? Senti prazer? • Poderia ter evitado? • Colocado na minha situação, um outro teria podido se opor, se debater, fugir? O psi pode ir adiantando as perguntas que não ousa exprimir, dizendo: • Quem detinha o poder (parental, espiritual, moral, organizacional, físico, psicológico)? • Quem era o adulto? O marcador social? O referente? • Quem era o instigador, o organizador dos abusos? • Quem poderia fazer cessar? Pode fazer-lhe compreender que a sua culpabilidade está ligada à defasagem entre a vivência passada (e as razões pelas quais a vítima não pôde impedir: a sua tenra idade, sua ignorância, sua total confiança) e a sua vivência atual, quando já é mais velha, menos ignorante, menos ingênua e já sabe se proteger. Crê-se culpada porque olha os acontecimentos passados com os olhos do adulto prevenido que é hoje. Ora, na época, não possuía as defesas necessárias para impedir o abuso. Separar-se do agressor [É de fundamental importância sair da culpa, perceber que houve crime, invasão de privacidade, abandono e negligência, e aprender que os lugares já estão dados há milênios, no mundo desértico que eles criam, e aprender a se defender e se situar na sua história.] Pode-se também ajuda-la a diferenciar o ponto fraco do qual se serviu o perverso, por exemplo, uma necessidade de ternura completamente legítima, uma confiança cega, e o crime que cometeu, se aproveitando desta necessidade legítima de afeição ou da confiança, para saciar seus desejos imorais. Desligar estes dois elementos é frequentemente um momento de verdade e um alívio para a pessoa, que faz o seu segundo passo para a cura quando não se sente mais responsável. [Nomear o crime, o criminoso e a arma do crime tem o efeito de separar a vítima do agressor e fazer com que a vítima restaure a sua dignidade de pessoa humana. É verdadeiramente reparador!] Mas o caminho será ainda longo até cicatrização da ferida. A precipitação e a impaciência são os grandes inimigos do conselheiro (e do cliente) neste domínio. 3. Falar pode custar-lhe caro Cada vez que a pessoa abusada mergulha no horror do seu passado, deve pagar um preço muito elevado. Tentando “esquecer” o abuso, virar a página, tinha construído certo equilíbrio, por exemplo, com os seus parentes. Se decidir fazer explodir a verdade, vai desorganizar este equilíbrio fictício e suscitar pressões dos parentes. Encontra-se sempre falsos “bons conselheiros” preocupados mais com a sua própria tranquilidade e pelo que dirão, defensores dos abusadores, que vão acusa-la de mentir ou exagerar, de despertar o passado e incita-la-ão a esquecer, ou mesmo “a perdoar”; o cúmulo é que corre o risco até mesmo de ser responsabilizada pelo abuso. [É tradicional a culpabilização das vítimas.] O psi deverá, então, apoiar, incentivar e assegurar a sua proteção material e psicológica. Ajuda-la a avaliar o preço da luta que deverá efetuar para sair do lamaçal do abuso sexual e realizar que o seu desejo de sair do sofrimento será ainda negado por aqueles que deveriam mais protege-la: a família ou os responsáveis pelas instituições. [Ou faze-la militar na área para mudar as circunstâncias e fazer a sociedade agir pela proteção das crianças. Precisamos sim ficar mais ativos contra as indecências que trazemos de priscas eras animalescas. A criança deve ser respeitada na sua integridade física e moral.] É necessário notar que quando o abusador faz parte de uma instituição, qualquer que seja, esta decide frequentemente, por medo do escândalo, “acoberta-lo” e, por conseguinte, permanecer na recusa do abuso, mais do que reconhecer publicamente a existência de um perverso sexual na instituição. [Mas, estamos vendo muitos padres se demitindo e sendo processados. É um avanço do Estatuto da Criança e do Adolescente! Mas é verdade que a cultura é permissiva para com os crimes sexuais!] Há um consenso social de reprovação à pessoa que tem a coragem de remexer nestas coisas imundas: que ela continue como morta viva, não é grave. O mais importante, é que se cale. 4. Sofre de vergonha Sartre disse que a vergonha é “a hemorragia da alma”. Um abuso sexual marca a pessoa a ferro e fogo, a suja, a leva a esconder-se dos outros. A vergonha é uma mistura de medo da rejeição e cólera para com abusador, que não ousa se exprimir. [Sente-se culpada pelo crime até nomear o crime, o agressor e a arma do crime. (N. da T.)] O sentimento justo que deveria provar é a cólera. Provar este sentimento liberador ajuda-a a sair da vergonha. É necessário, às vezes, tempo para que chegue a exprimir a sua indignação face à injustiça que sofreu. Esta expressão da cólera poderá fazer-se seja de maneira real, frente ao culpado, ou, se não for possível para a sua segurança pessoal, de maneira simbólica. Em todos os casos cabe à vítima decidir. A vergonha está ligada ao olhar que a vítima leva sobre si própria; vê-se como suja por toda a vida. É o seu olhar sobre si mesma que deverá se alterar, e isto alterando a sua maneira de pensar. 5. O desprezo Sentindo-se envergonhada, a pessoa abusada tem duas soluções: desprezar-se a si própria ou desprezar o abusador e os semelhantes. Nos dois casos, o resultado é o mesmo: autodestruição, porque o ódio de si ou o ódio do outro são ambos destrutivos. O desprezo por si própria pode referir-se ao seu corpo, a sua sexualidade, a sua necessidade de amor, a sua pureza, a sua confiança. Este desprezo de si tem quatro funções: atenua a sua vergonha, asfixia as suas aspirações à intimidade e à ternura (desprezar-se anestesia o desejo), dá-lhe a ilusão de dominar o seu sofrimento e evita-lhe que procure a cura do seu ser. Quando o desprezo por si mesma é muito intenso, pode levar à bulimia, à violência contra si e ao suicídio; nestes três casos, a pessoa pune o seu próprio corpo porque ele existe e tem desejo. 6. O verdadeiro inimigo Se perguntar a uma pessoa que sofreu um abuso sexual qual é o seu inimigo, responderá sem dúvida: “É o culpado do abuso.” O que lhe parece evidente. A vítima tem escolha: ou combate, cultivando o seu ódio para com o abusador, ruminando uma vingança contra ele; ou foge, procurando esquecer, endurecendo-se para não mais sofrer, fechando-se em si mesma, passa a ser insensível, de maneira a não mais sentir nem emoção nem desejo. Mas estas duas soluções são vãs, porque o inimigo não é o abusador. Certamente, representa um problema, mas a boa notícia é que não é o problema essencial. O verdadeiro adversário é a determinação da pessoa em permanecer no seu sofrimento, a sua morte espiritual e psíquica e a recusar voltar a viver. O inimigo reside, por conseguinte, paradoxalmente, na própria vítima! Este terceiro passo para a cura é sem dúvida o mais difícil de cruzar. A pessoa deve compreender que tem na frente dela a vida e a morte, e que pertence apenas à ela permanecer na morte ou escolher viver. Quando o conselheiro sente que ela tomou a decisão de sair da pulsão de morte para entrar na pulsão de vida, terá então sem dúvida a ocasião de lhe falar dos três grandes estragos que o abuso produziu na sua vida e que deverão ser reparados. 7. O sentimento de impotência O abuso sexual foi imposto à vítima. Que tenha se produzido uma vez ou cem vezes, com ou sem violência, não altera o fato de que foi privada da sua liberdade de escolha. Os estragos produzidos pelo abuso sexual Estes estragos constituem umas torrentes tumultuosas que devastam a alma, e que inclui: o sentimento de impotência, o de ter sido traída e o sentimento de ambivalência, bem como vários outros sintomas. O sentimento de impotência O abuso sexual foi imposto à vítima. Que tenha se produzido uma vez ou cem vezes, com ou sem violência, não altera em nada o fato de que foi privada da sua liberdade de escolha. Este sentimento provem de três razões: Não pôde alterar a sua família disfuncional, se se trata de um incesto. Os seus parentes não a protegeram como deveriam, a sua mãe ou a sua sogra nada viram ou fingiram nada ver. Que o abuso tenha sido acompanhado de violência ou não, que tenha havido dor física ou não, a vítima não pôde escapar, o que cria nela fraqueza, solidão e desespero. Além disso, o culpado serve-se da ameaça ou da vergonha para reduzir ao silêncio e recomeçar em toda impunidade, o que aumenta a sua impotência. Não chega a pôr um termo ao seu sofrimento presente. Só a decisão de suprimir-se anestesiaria a sua dor, mas não pode se resolver, então continua a viver e a sofrer. b. Este sentimento de impotência provoca graves prejuízos A pessoa abusada perde a consideração por si própria, duvida dos seus talentos e crê-se medíocre. Abandona qualquer esperança. Insensibiliza a sua alma para não mais sentir a raiva, o sofrimento, o desejo ou a alegria. Esconde e repele no seu inconsciente as lembranças horríveis da agressão sexual. Pela força de renunciar a sentir a dor, torna-se como morta. Perde o sentimento de existir, parece estrangeira a sua alma e a sua história. Perde o discernimento relativo às relações humanas, o que explica que as vítimas de abusos recaem constantemente nas garras de perversos, o que reforça o seu sentimento de impotência. 2. O sentimento de ter sido traída Muitas pessoas ignoram o nome dos onze outros apóstolos, mas conhecem Judas, o traidor. Por quê? Porque a maior parte das pessoas considera que nada é mais odioso do que ser traído por alguém que se supunha amigo e respeitoso. A pessoa abusada sente-se traída não somente pelo abusador em quem tinha confiança, mas também pelos que, por negligência ou cumplicidade, não intervieram para fazer cessar o abuso. As consequências da traição são: uma extrema desconfiança e a suspeita, sobretudo em relação às pessoas mais amáveis; a perda da esperança de ser próxima e íntima de outro e de ser protegida no futuro, visto que os que tinham o poder não o fizeram; a impressão que se foi traída, foi porque mereceu, devido a uma falha no seu corpo ou no seu caráter. 3. O sentimento de ambivalência Consiste em sentir duas emoções contraditórias ao mesmo tempo. Aqui, a ambivalência gravita ao redor dos sentimentos negativos (vergonha, sofrimento, impotência) que simultaneamente, às vezes, foram acompanhados de prazer, que seja relacional (um cumprimento), sensual (uma carícia), ou sexual (tocar nos órgãos), nas primeiras fases do abuso. O fato que o prazer, às vezes, seja associado ao sofrimento provoca prejuízos consideráveis: a pessoa sente-se responsável por ter sido abusada, já que “houve” prazer; a lembrança da agressão pode retornar nas relações conjugais; não chega a desabrochar-se na sua sexualidade que é para ela demasiado ligada à perversidade do abusador; controla e mesmo proíbe-se o prazer e, por conseguinte, o seu desejo sexual. O conselheiro deve explicar à pessoa que não é responsável por ter sentido prazer, porque é normal que apreciou as palavras e os gestos “de ternura” do abusador. É a natureza que deu ao ser humano esta capacidade de sentir prazer. O que não é normal é a perversão dos que premeditaram estas atitudes afetuosas para fazer cair uma presa inocente na sua armadilha. É ele o único responsável. 4. Alguns outros sintomas Pensa-se em eventual abuso sexual se o cliente: - Sofre de depressões repetidas. - Apresenta perturbações sexuais: falta de desejo, asco, frigidez, impotência, temor ou desprezo pelos homens ou mulheres, medo de casar-se, masturbação compulsiva. Na criança, esta perturbação do autoerotismo, assim como algumas enureses, podem fazer pensar em abuso sexual. - Destrói-se pelo uso abusivo de álcool, de droga ou de alimento. A obesidade, em especial, permite às jovens ou mulheres que foram violadas se tornar, inconscientemente, menos atrativas e se proteger assim contra outra agressão. - Sofre de dores de barriga, de infecções ginecológicas repetidas. - Um estilo de relação com os outros muito caraterístico: ou é demasiado agradável com todos, ou é inflexível e arrogante, ou por último é superficial e inconstante. Ajudar a vítima a voltar à viver Esta deverá cessar de ouvir as vozes internas que a mantém na culpabilidade e vergonha e se pôr à escuta da voz da verdade, que a conduzirá para a libertação. Deverá também abandonar as vias sem saídas que pessoas bem intencionadas, mas incompetentes (das que ajudam “pouco ajudadas”!) lhe propõem: negar o abuso, minimizá-lo, para esquecer, para perdoar o culpado sem que este se arrependa seriamente, para virar a página, para parar de reclamar, etc. A via que leva ao bem-estar compreende duas etapas: olhar a realidade de frente, e decidir viver. 1. Olhar a realidade de frente A pessoa deverá reencontrar as lembranças do abuso, admitir os estragos e gradualmente sentir os sentimentos adequados. [Momento de turbilhão, difícil sentir sentimentos adequados, realizar o abuso que não se tinha noção de que era crime, uma violação da integridade física e psíquica de indefeso, covardia da grossa! Há um medo da vingança. Mas a vingança é a denúncia. E sem denúncia não se separa da culpa, que deve recair sobre o criminoso. Sem criminoso, a vítima fica identificada com o agressor se auto-agredindo si mesma. Por isto é tão importante denunciar. Sem nomear o crime, o criminoso e a arma do crime, a vítima continua vítima. E O Pacto do Silêncio e da desautorização e exclusão da vítima como louca reina absoluto e ela não recebe nada, dela só lhe é tirado, não recebe a transmissão de como se defender e defender os seus direitos. Há laissez-faire, cumplicidade, impotência, anuência, complacência... ] a. Reencontrar as lembranças do abuso A vítima prefereriria esquecer, tanto a enoja ou a terrifica. Ou então, fala friamente como se fosse de uma outra pessoa que se trata. Mas, esta recusa é um obstáculo à cura. O abuso não deve ser apagado, mas nomeado. Assim, com muito tato, incentivar a lembrar do passado, às vezes muito remoto, porque só um abcesso esvaziado pode cicatrizar. O retorno das lembranças repelidas vai se fazer progressivamente durante a psicoterapia. O inconsciente da pessoa colabora ativamente por meio de sonhos, ou imagens que lhe vem ao espírito. Certos acontecimentos fazem também reaparecer os traumatismos esquecidos, por exemplo: um encontro com o abusador, uma gravidez, a menopausa, um outro abuso, o fato de que um de seus filhos atinja a idade que tinha quando foi abusada, o fato de reencontrar-se nos lugares da agressão, ou o falecimento do culpado. b. Admitir os estragos [É devastador!] Este regresso penoso no passado vai permitir-lhe admitir as duras verdades seguintes: • Fui vítima de um ou vários abusos sexuais. É um crime contra o meu corpo e contra a minha alma. • Sendo vítima, não sou responsável deste crime, que só pude sentir. • Em consequência destes abusos, sofro de sentimentos de impotência, de traição e de ambivalência. • O meu sofrimento é intenso, mas a cicatrização é possível, se admitir que houve ferida. Esta cicatrização levará tempo. • Não devo envolver o meu passado com um véu de segredo e de vergonha; mas também não sou obrigada a falar a qualquer um. c. Sentir os sentimentos adequados [eu aprendi que sentir é uma grande coisa, mas não é tudo. Pois a gente não se vê, só se sente. E para se ver é preciso se colocar no lugar do outro, do abusador no caso, o que causa repulsa, por se ter que realizar o gesto do abusador. Mas é a maneira de entender o crime que aconteceu. Assim, passa pelo olhar do outro e deste nos tornamos tão dependentes. O que segue também acho muita precipitação, mas ouvi Gikovate dizer: A maturidade chega quando a gente pode olhar pro mundo e dizer: Que pena que o mundo é assim...!] A culpabilidade (que é um sentimento de extorsão muito frequente), a vergonha, o desprezo, a impotência, o ódio, o desespero, pela sua própria expressão vão sendo gradualmente substituídos por sentimentos mais amenos que são como a cólera para com abusador e os seus cúmplices, e a tristeza face aos estragos sofridos. Esta tristeza não deve levar à morte, ao desespero, mas à vida, ou seja a uma fé, uma esperança e um amor renovados. O conselheiro favorecerá a expressão destes dois sentimentos, de maneira real ou simbólica, mas sempre em toda segurança, no quadro protegido das sessões de relação de ajuda. 2. Decidir voltar à vida Por que uma vítima de abuso sexual deveria decidir voltar a viver, depois de tudo o que sofreu e sofre ainda? Simplesmente porque é melhor para ela escolher a vida e não a morte. Escolher viver significará para ela: a. Recusar estar morta A vítima acha normal viver com um corpo e alma mortos; paradoxalmente, isto lhe permite sobreviver não se arriscando mais a sentir alegria ou dor. b. Recusar desconfiar A vítima desconfia dos seres humanos. Uma mulher violada, em especial, vê todo “macho” como “o mal”. Deverá aprender a transformar a sua desconfiança para com os homens em vigilância, o que é muito diferente. c. Não mais temer o prazer e a paixão Estes dois elementos a reenviam ao drama que sofreu, então ela foge. Ao faze-lo, priva-se destes dois dons. Sendo vítima do desejo (perverso, mas desejo do mesmo modo) de alguém, “lança o bebê com a água do banho”, ou seja rejeitando o abuso que sofreu, rejeita ao mesmo tempo qualquer desejo, até mesmo o seu. Deve realizar que não é porque alguém teve um desejo perverso para com ela que deve doravante renunciar ao seu próprio desejo. d. Ousar amar de novo Deverá progressivamente renunciar às suas atitudes autoprotetoras e o seu fechamento em si mesma para provar de novo a alegria de amar os outros e de estabelecer relações calorosas e seguras. Deixará a sua carapaça para reencontrar um coração terno, capaz de correr o risco de amar aqueles que encontra. Abandonará as suas defesas, o que não quer dizer que não se cercará de proteções. Uma proteção não é uma defesa. Descobrirá que, se é verdade que uma ou várias pessoas a traíram, a grande maioria é digna de confiança. A revelação do abusador 1. Quem são? Na sua grande maioria são jovens pessoas ou homens provindos de todas as classes da sociedade e de todos os meios. Na maior parte das vezes, fazem parte do ambiente da vítima: um colega, um vizinho, um chefe escoteiro ou um animador de jovens, uma babá, um professor, um proprietário, um colega de trabalho, um padre, etc. Muito frequentemente são também membros da família: o pai, o tio, o avô, o sogro (cada vez mais frequentemente devido ao aumento dos rematrimônios e das famílias expandidas), o irmão, o meio-irmão ou o quase irmão, o cunhado, o primo, etc. fala-se então de incesto ou abuso sexual intrafamiliar. Trata-se, mais raramente, de uma pessoa desconhecida da vítima. É necessário notar que 80% dos agressores foram eles mesmos vítimas de abusos no passado, o que não o desculpa de modo algum, mas pode explicar em parte o seu comportamento. 2. A Revelação Uma vítima tem muita dificuldade para denunciar o seu agressor; revelará mais facilmente o abuso em si. No entanto, esta denúncia tem um grande alcance terapêutico e é necessário incentivar a quebrar o silêncio. Uma vez dito à outro, a palavra torna-se inter-dita e não mais interditada, como queria o perverso. Mas esta denúncia frequentemente é mal aceita pela sociedade. Enquanto uma pessoa sexualmente abusada não denunciar o culpado, é considerada como vítima. Mas o dia em que decide se referir à Justiça, consideram-na então como culpada de acusar alguém, e o crime cometido para com ela vai ser negado. É por isso que, por exemplo, a grande maioria das mulheres violadas, se resignam a permanecer vítimas por toda a vida e, por conseguinte, a calar-se por medo de ser acusada do crime que denuncia. Ora, nunca deveriam hesitar a devolver o peso do crime à quem pertence: ao violador. É necessário, no entanto, saber que, se denunciar tem um efeito terapêutico, o processo judicial é longo, penoso e dispendioso. Os interrogatórios repetidos, a falta de respeito e tato de certas pessoas, a vergonha de revelar a sua história na frente de todos, a impressão de não lhe darem crédito, provocam o que se chama de vitimização secundária. Cada vez que relata a violação, a mulher se sente de novo violada. O apoio, material e psicológico, de organismos especializados na ajuda às vítimas de abusos sexuais, é precioso neste tipo de diligência, tanto mais que o julgamento pronunciado do culpado, na maioria das vezes clemente, parece decepcionante e injusto à vítima e reaviva a sua dor. Se tiver o conhecimento de um caso de abuso sexual, a primeira coisa a fazer é afastar a vítima do agressor, a fim de evitar que este último recomece. No caso específico de abuso sexual sobre menor, a segunda diligência é informar as autoridades competentes (serviços sociais e Conselho Tutelar). A lei obriga a esta revelação, e deve-se, neste caso, quebrar o segredo profissional, senão se corre o risco de ser considerada pela lei como cúmplice. Esta denúncia visa a proteger a vítima e as outras vítimas potenciais, e a obrigar o culpado a parar as suas atuações. As reações do abusador a sua revelação Um recente Colóquio europeu sobre as violências sexuais estabeleceu que 82% dos abusadores não admitem a sua responsabilidade (53% negam totalmente os fatos). Só 18% dentre eles admitem os fatos, e ainda porque são obrigados após confrontação com as vítimas, e não sem a acusar de “te-lo provocado”. Esta negação dos fatos permite-lhes perseverar na sua perversão, e por conseguinte, não se privar do seu gozo, que só conta para eles. Quando não podem mais negar os fatos, admitem-no minimizando ou negando as consequências desastrosas sobre as vítimas, sobretudo se o abuso for isento de violência física. Se tiverem remorso ou se lamentarem, nunca será por seus crimes, mas por ter-se feito denunciar e pelo dever de parar. Se o psi mostrar-se indulgente para com um perverso, porque deseja regrar rapidamente uma situação que o excede ou desagrada, corre o risco de ser manipulado pelo abusador que fará prova de “se arrepender” para continuar em paz as suas atividades viciosas escondidas. Faz-se assim de seu cúmplice, o que é grave. Uma reação possível do culpado de abusos é a seguinte: ele suja e se alia. Suja as vítimas ou outras pessoas inocentes acusando-as do mal que ele mesmo comete; ao faze-lo alivia, assim, a sua culpabilidade. Além disso, alia-se com os que podem se tornar seus aliados e seus defensores (um pai incestuoso alia-se a sua mulher de modo que o deixe abusar da sua filha). Um perverso que é revelado e que recusa se arrepender pode cair no pânico, na depressão, no álcool ou no suicídio; mais frequentemente endurece-se e continua de maneira mais intensa as suas práticas. É extremamente raro que um delinquente sexual arrependa-se realmente, (no máximo exprimirá vagas “lamúrias”), mas é necessário sempre dar-lhe a ocasião. Em conclusão, todo terapeuta deveria se dedicar a formar-se neste domínio tão específico, se quiser se ocupar de pessoas que sofreram deste drama que constitui o abuso sexual. [Ou qualquer crime violento contra a sua integridade física e psíquica] Fonte: Claire et Jacques Poujol - www.relation-aide.com Tradução: Mirian Giannella – http://apoioasvitimas.blogspot.com

segunda-feira, 24 de maio de 2021

REABILITAÇÃO DE HOMENS VIOLENTOS: EFICAZ OU AREIA NOS OLHOS?

Data: 23 de maio de 2021

POR FRANCINE SPORENDA

Tradução Mirian Giannella

 

Em relação à questão da abolição da instituição prisional, as feministas elogiaram o modelo prisional sueco que seria exemplar porque se baseia na reabilitação de criminosos e afirmaram que a reabilitação de criminosos implementada na Suécia reduzira significativamente a violência masculina.

É bem possível que o modelo carcerário sueco alcance bons resultados para o crime econômico. Mas as estatísticas de estupro na Suécia não apoiam a afirmação acima, que se baseia no equívoco de que os países escandinavos são sociedades igualitárias. Para os crimes sexuais, cujas motivações são muito diferentes das do crime econômico, os números suecos não indicam que a reabilitação dos agressores tenha um impacto perceptível sobre essa violência.

Lembro-me esses números: a Suécia é o 6º país no mundo para o número de estupros, o número de estupros registrados em 2019 foi de 8 581, ou 85,8 por 100 000 habitantes. Para a França, em 2017 era de 24,4 por 100.000 habitantes (em 2019, pode ter aumentado um pouco), ou seja, 3,5 vezes mais estupros para a Suécia (1).

Podemos considerar que isso se explica pelo fato de que as mulheres suecas, vivendo em uma cultura em que a justiça é considerada menos patriarcal do que na França, são menos relutantes em registrar queixa do que as francesas. Uma definição diferente de estupro também pode ser um fator que justifica em parte esse diferencial.

Como em geral, as estatísticas de estupro podem ser difíceis de interpretar, a fim de determinar se as políticas suecas sobre violência masculina são eficazes, verificar o número anual de feminicídios na Suécia pode fornecer uma imagem mais clara. Em 2018, conta-se 33 feminicídios nesse país. Na França, no mesmo ano de 2018, foram 121 feminicídios (2).

A população da Suécia é de pouco mais de 10 milhões, a da França é de pouco mais de 67 milhões, ou 6,7 vezes maior. Um cálculo rápido permite saber qual seria o número de feminicídios se a Suécia tivesse o mesmo número de habitantes da França: 33 × 6,7 = 221,1. 221 mulheres mortas se a Suécia fosse tão populosa quanto a França - em comparação com 121 na França.

E aí, não se pode argumentar - e por boas razões - que as vítimas suecas fazem queixas com mais frequência, os números são claros, indiscutíveis: mulheres morreram, foram mortas por homens e seu número é contado e registrado pelos serviços estatísticos suecos. Paradoxalmente, a França, que não implementa uma política sistemática de reabilitação de homens violentos (estágios são oferecidos pela administração penitenciária em alguns departamentos), tem menos feminicídios e estupros do que a Suécia, que adota tal política desde 2002, com base na abordagem canadense.

Na verdade, é bem conhecida essa contradição entre a imagem dos países nórdicos, vistos como tendo alcançado um nível comparativamente alto de igualdade de gênero e, no entanto, apresentando um índice muito elevado de violência contra as mulheres (estupro, agressão sexual e feminicídio). é chamado de "paradoxo nórdico".


Continuando essas verificações nas estatísticas de violência contra as mulheres, no Canadá, que implementou esses cursos por várias décadas (aparentemente no início dos anos 1990) e cujo modelo inspirou a Suécia, a cifra de feminicídios é de 148 em 2018 para uma população de 37,06 milhões de habitantes para esse mesmo ano. Em comparação com os números franceses (121 em 2018 para 67 milhões de habitantes), encontramos a mesma situação da Suécia: um país que foi pioneiro em termos de estágios para homens violentos tem uma taxa de feminicídios maior que o dobro de outro onde esta prática não é generalizada: novamente, à primeira vista, a eficácia desses cursos não é óbvia.  

A Espanha parece ser um modelo melhor a seguir na luta contra os feminicídios: 47 feminicídios em 2018 para quase 47 milhões de habitantes (46,94 exatamente). A Espanha, portanto, tem cerca de 1 femicídio por 1 milhão de habitantes, a Suécia mais de três vezes mais (3,3 femicídios por 1 milhão de habitantes).

Por que esse número significativamente menor na Espanha? Pode-se perguntar se é pelo fato de a Suécia confiar mais na reabilitação de homens que cometem crimes sexuais - método cujos resultados são, à luz destes números, pouco convincentes - enquanto a Espanha aposta mais na proteção das mulheres? Não seria uma das explicações para esta importante diferença estatística?

REABILITAÇÃO ATRAVÉS DE CUIDADOS

Quais são os conceitos e métodos na base desses cursos de reabilitação para homens perpetradores de violência sexual organizados nas prisões suecas? Na Suécia, os “agressores sexuais” são mantidos em prisões especiais (são 5 ao todo) e todos os perpetradores de agressão sexual que estão detidos podem ter acesso, se desejarem, a esses programas implementados por equipes treinadas (3).

Mas os presos por crimes sexuais têm pouco interesse nesses procedimentos, que recebem com grande resistência. Alguns os recusam e se limitam à negação, ao ódio às mulheres e à recusa de responsabilidade, e aqueles que concordam em participar, muitas vezes, se alistam porque a realização de um desses estágios permite que sejam transferidos posteriormente por bom comportamento, para uma "prisão aberta" onde gozam mais liberdade (4). As abordagens utilizadas são principalmente terapia cognitiva e comportamental (TCC) e multissistêmica (5). Estudos foram feitos para avaliar o impacto desses programas na reincidência de agressores sexuais tratados desta forma, e são inconclusivos: de acordo com uma pesquisa de 3.000 homens encarcerados por agressão sexual, as porcentagens de reincidência durante um determinado período, entre presidiários que concluíram um curso de reabilitação e um grupo de controle de agressores sexuais que não se beneficiaram dele, mostram diferenças mínimas (10,1% de reincidentes tendo concluído um curso em comparação com 13,6% não tendo feito) (6). Diferença de apenas 3 pontos, portanto considerada estatisticamente insignificante, ou seja, possivelmente devido ao acaso. As conclusões do estudo que cita estes números são que "é impossível tirar uma conclusão geral positiva sobre a eficácia do tratamento dos abusadores sexuais" (7). De fato, relata-se que quando se utiliza a castração química (às vezes em combinação com cursos de reabilitação), é esse método que, sem ser 100% eficaz, produz os efeitos mais marcantes (8).

Essa falha não é surpreendente porque a abordagem sueca de reabilitação para criminosos sexuais é baseada em uma premissa questionável: que os presidiários que cometem violência sexual cometem esses crimes porque sofrem de doenças mentais ou transtornos de personalidade tratáveis por uma abordagem psicoterapêutica. Porém, ao contrário da explicação estereotipada veiculada pelo discurso dominante para esses tipos de crimes: “estupradores são loucos, doentes”, mas os homens que estupram costumam ser normais e bem integrados socialmente; apenas 7 a 10% deles, dependendo dos estudos, se enquadram na psiquiatria (9), a normalidade e impunidade do estupro definindo com precisão o que se denomina “cultura do estupro”, e a palavra “cultura” indica o caráter social da prática da violência sexual.


Essa violência é essencialmente a consequência de uma relação de poder desigual entre os sexos, os homens tendo internalizado que seu status dominante lhes dá certos direitos sobre as mulheres, em particular de dispor delas sexualmente. Na medida em que essa noção dos direitos sexuais dos homens sobre as mulheres é uma norma comumente aceita em nossas sociedades, que os estupradores só levam às suas consequências extremas e penalizáveis, não podemos tratá-los com cuidado mais do que tratar os racistas com cuidado: não se pode tratar, individualmente, uma norma social internalizada, com uma abordagem psicoterapêutica. Esses tratamentos, atribuindo uma causalidade psicológica a esses estupros e tentando remediá-los por meio de abordagens relacionadas à psiquiatria, reforçam a negação social de seu caráter de fenômeno coletivo e os reduzem a comportamentos individuais aberrantes. Sendo a violência um instrumento essencial de controle masculino sobre a mulher, qualquer "tratamento" dessa violência, que não identifique corretamente as condições sociais que a produzem, não só não pode ter um impacto significativo sobre ela, como também contribui para perpetuá-la, mantendo a ilusão que a está reduzindo.

Mais grave ainda, se esses estágios de reabilitação parecem dar poucos resultados em relação ao seu custo, ficamos sabendo que no Quebec, seu financiamento no orçamento de 2021 é quase igual ao de abrigos para mulheres agredidas: em 5 anos, $19,8 milhões, em comparação com $22 milhões (10). Qual orçamento é dedicado ao financiamento de psicoterapias para suas vítimas? Mais uma vez, o patriarcado acerta um golpe duplo: os homens violentos se beneficiam de cuidados financiados pelo Estado (ou seja, pelos contribuintes, homens e mulheres), e as mulheres, vítimas de predadores sexuais, também devem financiar a reabilitação.

De acordo com as estatísticas acima, não apenas a eficácia da reabilitação de criminosos pelo sistema prisional sueco exemplar é questionável - e a Suécia não é um paraíso feminista - mas a violência contra as mulheres é maior lá do que na maioria dos países ocidentais que não adotaram essas políticas de reabilitação! No entanto, esse mito sueco é aceito sem exame porque valida as teses liberais sobre a redução da violência masculina pela reeducação de homens violentos e reforça as posições de uma franja feminista conhecida como "anticarcerária" (isto é, a convocação para a abolição das prisões). Outra razão pela qual esses estágios continuam a ser financiados, apesar de seus resultados inconclusivos, é que em torno deles (como em torno da mediação familiar) foi criada toda uma indústria de treinadores, conselheiros, mediadores, psicólogos especializados etc., que obviamente promovem a ideia de que esses cursos são a solução para a violência masculina. Com esses estágios, a sociedade fica com a consciência tranquila e pode permanecer na negação sobre as reais causas dessa violência.

As feministas devem questionar sistematicamente esses discursos que propõem soluções milagrosas para a violência masculina porque, no caso particular do "feminismo anticarcerário", suas propostas aparentemente empáticas e humanitárias, voltadas para substituir o encarceramento de criminosos por soluções alternativas, são portadoras de graves consequências para as mulheres. Em primeiro lugar, quando essas soluções são adotadas pelo sistema judiciário, como substituto a certos procedimentos penais, fornecem um pretexto para desjudicializar ainda mais o estupro e outros crimes sexuais, para desobstruir os tribunais que estão subfinanciados e sobrecarregados por uma carga de trabalho incontrolável (porque os tribunais estão saturados, 40 a 60% dos estupros, embora definidos como crimes pelo código penal, são ‘correcionalizados’, isto é desqualificados como simples delitos...

Claro, os crimes contra as mulheres são insuficientemente reconhecidos pelo judiciário, e os culpados gozam de ampla impunidade, mas na medida em que a pena de prisão é tanto o reconhecimento da gravidade desses crimes quanto a proteção, pelo menos temporariamente, contra aqueles que os cometem, as propostas do "feminismo anticarcerário", que pretendem retirar das mulheres as poucas garantias que obtiveram face ao crime sexual masculino, após décadas de luta feminista, constituem um retrocesso e um perigo potencial para as mulheres.

Em primeiro lugar, da maneira mais óbvia: pelo fato de que predadores terríveis seriam deixados livres e, na melhor das hipóteses, simplesmente engajados no processo de reabilitação, predadores dos quais uma proporção significativa reincidirá mais cedo ou mais tarde (12). Nem é preciso dizer que o preço das teorias das belas almas anticarcerárias seria pago pelas mulheres e crianças vítimas desses predadores. No entanto, embora seja óbvio que a reabilitação de agressores é problemática na melhor das hipóteses, esse feminismo anti-cárcere está encontrando um eco crescente, como evidenciado pelo impacto de um artigo de uma de suas porta-vozes do Quebec, Gwenola Ricordeau, publicado recentemente no siteVice (13). A autora observa que, sendo o estupro um crime em massa, o que prova que a dissuasão judicial funciona mal, então, devemos nos livrar dela. Raciocínio absurdo: se as condenações por estupro são muito poucas para serem dissuasivas, a solução é removê-las por completo? Não faria mais sentido condenar estupradores com mais frequência? E para isso conceder meios financeiros decentes à polícia e ao sistema de justiça, tratados como parentes pobres, para reduzir o número de correções e investigações concluídas sem acompanhamento?

Teses anti-prisão não são novas, movimentos de extrema esquerda, em particular com uma tendência anarquista libertária, têm apoiado essas posições por décadas, seu principal argumento é que a população carcerária é quase exclusivamente composta por homens pobres e racializados, vítimas de uma justiça estatal classista e racista, o que as estatísticas confirmam. Lembramos que na época da Segunda Onda Feminista, falocratas de esquerda alegavam proibir as mulheres estupradas por imigrantes de apresentarem queixas - porque a seus olhos era inaceitável enviar para as prisões do estado burguês homens pobres e vítimas de racismo; só a opressão de classe e "racial" importava para eles, a da "proletária do proletario" não os preocupava minimamente, a ignoravam soberbamente.

Podemos ver quais eram as prioridades desta esquerda revolucionária ultra-machista: o que dizia respeito aos homens era, por definição, sempre mais importante, a defesa dos direitos dos estupradores proletários e sua liberdade vinha antes da proteção das mulheres (muitas vezes também proletárias) que eles agrediam. As mesmas prioridades em Houria Bouteldja, que exortou as mulheres das minorias a não denunciarem os "irmãos" se eles as estupraram.  

Percebemos as mesmas escalas de valores, os mesmos reflexos sexistas e a mesma ausência de referências feministas no artigo de Gwenola Ricordeau que prega a abolição do sistema prisional, e seu principal argumento é o mesmo de seus antecessores antiprisionais: a instituição prisional é injusta porque os homens presos por estupro e agressão sexual são predominantemente "pobres, de imigração ou história colonial". É óbvio que os agressores sexuais das classes altas, na maioria das vezes, escapam da prisão (foi o que apontou Georges Vigarello em sua "História do estupro"), o que é inaceitável. Contudo, faria justiça não prender pobres predadores sexuais sob o pretexto de que predadores ricos nunca vão? Ou antes, deveríamos garantir que estes fossem encarcerados com mais frequencia por suas agressões? Observamos em Gwenola Ricordeau a mesma indignação seletiva dos esquerdistas dos anos 70 diante das injustiças sofridas por criminosos de categorias desfavorecidas, implicitamente consideradas mais injustas do que a violência que infligem às suas vítimas femininas, e a mesma indiferença para com as consequências que a abolição do sistema prisional teria para as mais fracas e vulneráveis entre elas.

O tipo de reabilitação que deveria substituir o encarceramento proposta pelos anticárceres é a “justiça restaurativa”. As feministas emitiram as mais expressas reservas sobre esta alternativa à justiça criminal que surgiu em grupos cujo acesso a esta justiça criminal racista e classista era limitado, ou que se sentiram discriminados ou não foram ouvidos em suas interações com ela, como as populações indígenas no Canadá, que estão (como os afro-americanos nos Estados Unidos) desproporcionalmente representados na população carcerária em relação ao seu tamanho demográfico. Grupos de mulheres também se formaram com base nessa abordagem restaurativa em alguns campi canadenses onde as autoridades universitárias instituíram processos inadequados e ineficazes de resolução de casos de estupro: diante dessa falha das autoridades, as mulheres assumiram esses casos. Em todas essas situações, foi porque os órgãos oficiais encarregados de punir várias infrações eram deficientes em relação a certas categorias de vítimas que o recurso à justiça restaurativa foi considerado como substituto.

 

O QUE É A JUSTIÇA RESTAURATIVA?

O conceito a partir do qual opera a justiça restaurativa é que, quando uma ofensa é cometida, não é apenas a vítima que sofre o dano, é toda a comunidade onde a ofensa ocorre que é afetada e todos os que dela fazem parte. Um exemplo desse axioma dado pelos defensores da justiça restaurativa é o estupro: quando o estupro ocorre em uma comunidade, a segurança de todas as mulheres da comunidade está ameaçada.

Nessa abordagem, o delito não diz respeito apenas ao estado, à polícia e ao sistema de justiça, mas a todo o grupo a que pertencem as pessoas envolvidas, às relações interpessoais dentro desse grupo e às da vítima e do agressor. Na justiça restaurativa, o objetivo é consertar essas relações comprometidas: a comunidade é fragmentada e desestruturada por essas ofensas, sua unidade deve ser restaurada e a relação entre o agressor e a vítima também deve ser corrigida. Portanto, a responsabilidade pelo crime não é apenas do autor do crime, é também coletiva; por exemplo, em um caso de estupro, podemos integrar a noção de cultura do estupro na consideração da agressão. Nessa abordagem, o agressor é, de certa forma, vítima desse sistema, assim como a agredida.


Vemos o que perturba as feministas na justiça restaurativa: a proteção da vítima, seu bem-estar e suas necessidades, a importância de sua reconstrução, o reconhecimento dos graves danos materiais e psicológicos que lhes foram causados. A profundidade e a persistência de seu trauma não são mais o foco; o que se propõe é a reparação dos danos causados à comunidade, o restabelecimento da sua coesão e a reabilitação do agressor, para que volte a fazer parte dela. Essa abordagem tem sido comparada à das famílias diante do incesto: deve ser suprimida ou minimizada, para não separar a família: a preservação do clã é uma prioridade, e para isso a agressão é minimizada, reduzida ao conflito interpessoal, as responsabilidades são compartilhadas, a distinção ética fundamental entre vítima e agressor torna-se confusa e as dificuldades e sofrimentos desta última também deveriam ser ouvidos. E o objetivo final da justiça restaurativa é que, uma vez que ele tenha admitido sua culpa e compensado a vítima, a resolução do conflito assim obtido deve levar ao perdão e à reconciliação, condição para a unidade de um grupo. O bem coletivo tem precedência sobre todo o resto, preservar a comunidade e trazer de volta ao seu centro o membro perdido são os objetivos, a paz deve ser restaurada entre homens e mulheres, o sofrimento da vítima é secundário, ela deve se sacrificar pelo clã - isto é, pelos membros masculinos de seu clã.

O envolvimento da comunidade sendo central no conceito de justiça restaurativa, sendo uma das principais partes interessadas nos procedimentos de resolução de conflitos em obra; esses procedimentos são:

- conferências de família, durante as quais a situação é discutida, ações são consideradas e, possivelmente, um mediador é nomeado para garantir e controlar a comunicação entre o agressor e sua vítima. Para as feministas, pode lembrar as reuniões de família em que, quando uma mulher denuncia a violência doméstica que sofre, toda a família se une e a pressiona para convencê-la a ficar ou voltar com o marido.

- grupos de apoio à vítima, para tirá-la de seu isolamento. Esses grupos podem ser do mesmo sexo, e o objetivo de despersonalização da agressão será perseguido por meio do compartilhamento de relatos de agressões sexuais sofridas pelos integrantes do grupo, a fim de inseri-los no contexto geral da cultura do estupro.

- os grupos de responsabilização do agressor que o acompanharão para que tome consciência de sua culpa, pondere uma reparação e ouça a reprovação e a indignação da comunidade. Se persistir em não reconhecer sua responsabilidade, serão utilizados meios de retaliação, como ameaçá-lo de revelar publicamente sua identidade.

- encontros entre a vítima e o agressor, para que este se explique, se desculpa e peça perdão, na presença de mediação.

Também aqui as feministas não concordam que esses métodos devam ser usados em casos de crimes sexuais. A principal objeção diz respeito ao encontro vítima-agressor (este é o método implementado por uma associação de luta contra a pedofilia que põe em contato pedófilos e vítimas de pedofilia), cujos riscos para a vítima são óbvios: reativação do trauma, sensação de insegurança , perda de sigilo, medo de represálias. Olivia Mons, em representação da Associação de Vítimas da França, ressalta que a vítima pode ser exposta a "palavras muito duras" durante esses encontros, o que a desestabilizará e poderá comprometer sua reconstrução (14). Na presença intimidante ou mesmo ameaçadora de seu agressor, sua fala não será livre, paralisada pelo medo, ela não ousará ou será incapaz de expressar seus pensamentos. As vítimas podem ser submetidas a pressões por parte das famílias, dos agentes sociais ou de sua comunidade para aceitar esses encontros, conceder perdão ao agressor e retomar a relação com ele. Muitas vítimas de estupro ou pedofilia se recusam, terminantemente, a se encontrar na presença de seu estuprador, ao passo que, pelo contrário, e tanto quanto possível, querem virar a página e evitar pensar nele. Podemos ver essas injunções da comunidade para atender o agressor e refazer o diálogo com ele como uma forma de sadismo inconsciente para com as vítimas.

O agressor pode manipular a mediação, os grupos de apoio e a vítima, fingir remorso que não sente, usar essa encenação de arrependimento para se dar uma boa imagem social: conhecemos os talentos dos manipuladores de personalidades narcisistas. Membros de grupos de apoio e mediadores são voluntários sem formação em psicologia, cujas intervenções bem intencionadas, mas às vezes desajeitadas, longe de serem corretivas, podem agravar o trauma das mulheres agredidas. Enquanto os funcionários do tribunal estão imersos em preconceitos de gênero, também estão aqueles que atuam como mediadores. E esses voluntários são em sua maioria mulheres, são elas que, como sempre, investem seu tempo e energia sem compensação na cura da comunidade destruída e na reabilitação de criminosos masculinos, cuja associação pode ser emocionalmente difícil e até perigosa para elas. E assim encontram-se “lançadas” nos mais tradicionais papéis femininos: mães, enfermeiras, assistentes sociais, dedicadas ao serviço do homem, responsáveis por gerir e cuidar de seus comportamentos (auto) destrutivos e reparar os danos humanos e sociais que eles provocam.

Na “terapia de casal” como neste tipo de intervenção, a mediação envolve uma atitude de conciliação com a violência masculina para que o homem não se quebre e aceite se comunicar. Ao instalar uma falsa simetria entre os sofrimentos da vítima e do agressor, nega o diferencial de poder entre eles que está na origem da violência. Ao retirar a violência masculina do campo judiciário, e ao pretender resolvê-la com uma simples intervenção comunitária, banaliza essa violência, faz com que a gravidade desapareça, reduz um crime sob júdice ao nível de uma simples briga de bairro a ser resolvida amigavelmente.

Finalmente, a justiça restaurativa, quando substitui completamente a intervenção judicial, permite ao agressor escapar das sanções punitivas, o que é de grande benefício para ele: se lhe é oferecida a escolha entre submeter-se a um procedimento de justiça restaurativa e incorrer em sanções penais, sabemos antecipar qual será sua decisão. No entanto, pesquisas mostram que os benefícios da justiça restaurativa para as vítimas são menos claros. Achado previsível, dado que as prioridades da justiça restaurativa são antes de tudo a reconstrução da relação vítima-agressor e a "cura" do criminoso, condição para um retorno à normalidade da comunidade: que o crime seja de certa forma "digerido” e que a página seja virada, desafiando os direitos da vítima que, para as feministas, devem ser prioritários.

De maneira mais geral, podemos duvidar que a reapropriação pela comunidade de situações de violência contra as mulheres lhes ofereça maior proteção do que a justiça criminal. A justiça criminal é patriarcal - mas as comunidades também. Quanto mais forte o controle que uma comunidade exerce sobre os indivíduos, mais sua salvaguarda se torna um valor supremo, menos as mulheres são livres e mais são forçadas pela pressão da comunidade a respeitar os padrões patriarcais da comunidade em vigor.

Nesse debate, é importante lembrar que o encarceramento é predominantemente um fenômeno masculino (na França, 96,3% dos presos são homens) e que a instituição prisional acarreta custos muito elevados - os 3,8%. Bilhões de euros do orçamento anual da administração prisional são gastos quase exclusivamente no controle do crime masculino. Dado que quase todos os presidiários são do sexo masculino, fica ainda mais claro quem se beneficia com o abolicionismo prisional. Por outro lado, dado que o número de condenações por estupro caiu 40% em 10 anos (15) e que uma fração significativa dos presos por estupro (16) cometeu pelo menos outro crime sexual, não podemos dizer que a justiça implementa a prisão de estupradores em grande escala: sabemos que uma proporção ínfima deles é julgada e presa, que a maioria das investigações termina em "não seguimento" e que cerca de 9 em cada 10 agressores denunciados não são condenados. Como a justiça é frouxa e aprisiona poucos predadores sexuais, devemos concluir que aprisioná-los é inútil? A prisão não seria um impedimento, porque nós apenas mandamos um número mínimo de criminosos sexuais para a prisão, então vamos acabar com a prisão? É o mesmo tipo de raciocínio paralógico que avança aqueles pró-prostituição contra a lei que criminaliza a compra de sexo: pouquíssimos compradores de sexo são multados, essa lei é pouco e mal aplicada - até mesmo sabotada; Isso seria uma razão para acusá-la de ineficaz e exigir sua abolição? O que as feministas devem exigir, é uma melhor aplicação das leis que penalizam as violências masculinas e não a sua despenalização.

No entanto, é esta a solução proposta pelos partidários da abolição do sistema prisional, cuja resposta a esta imensa frouxidão judicial e social face à violência consiste em devolver uma concha. Esse objetivo é radicalmente antagônico à defesa dos direitos das mulheres e faz parte de uma ofensiva antifeminista mais ampla, decorrente de um “feminismo antiprisional” vinculado a movimentos queer, “intersetoriais” e “inclusivos” favoráveis à prostituição e à prostituição e ao movimento transgênero: um desses feminismos "não mexa no meu patriarcado" que o sofrimento dos machos violentos, desde que ‘proletários’, comova profundamente, e cujo programa de reivindicações consiste essencialmente em instrumentalizar o feminismo para colocá-lo ao serviço dos interesses patriarcais; como podemos ver neste artigo, “LGBTQI contra a prisão”, é a esse movimento que Gwenola Ricordeau se vincula ideologicamente (17). Entendemos por que essas posições antiprisionais fazem parte da plataforma de reivindicações dos movimentos acima citados: há uma óbvia coerência entre as posições do STRASS (que quer descriminalizar o proxenetismo e a compra de sexo) e as do pró-abolição das prisões (que querem descriminalizar o estupro e a agressão sexual): em ambos os casos, trata-se de descriminalizar a violência masculina. Por fim, lembremos que as radfems não são totalmente anticarcerárias: denunciam a prisão de mulheres condenadas porque se defenderam ou protegeram seus filhos contra um parceiro violento ou um predador sexual. Lamentavelmente, esta categoria de encarceradas não parece interessar muito as feministas anti-cárcere.


Referindo-se a Michel Foucault (“Vigiar e punir”), Gwenola Ricordeau afirma que, uma vez que a prisão estando a serviço do Estado, “não pode ser usada para lutar contra o capitalismo, o patriarcado ou o racismo sistêmico” (18). Se as feministas tivessem assumido esse ponto de vista do tudo ou nada - de que nada deveria ser esperado do Estado, da lei e do judiciário e tivessem desistido de lutar para fazê-los evoluir, não teríamos obtido o direito de trabalhar ou abrir uma conta bancária sem a permissão do marido, nem o direito de administrar nossa própria propriedade e dispor de nosso salário, nem o direito de se matricular ma universidade sem autorização marital, nem o direito de votar e ser eleita, nem estupro e nem o estupro marital seriam reconhecidos como crimes, não teríamos obtido o direito ao aborto e seu reembolso, etc. Claro, há uma distinção fundamental a ser feita entre direitos formais e direitos reais, mas sob o impacto das lutas feministas, os direitos formais podem gradualmente se tornar direitos reais. Enquanto se espera a abolição do patriarcado e do capitalismo, que esperamos ardentemente, mas que tarda a chegar, a abordagem reformista permite, pelo menos, melhorar concretamente a vida das mulheres, um objetivo (reconhecidamente trivial perante estas grandiosas causas revolucionárias) às quais Gwenola Ricordeau dá a impressão de ser indiferente.

Diante dessa nova ofensiva do feminismo “primeiro o homem” e sua abordagem para conciliar a violência masculina, e mesmo que possamos concordar que a instituição prisional, assim como o sistema de justiça, deva ser reformado e humanizado em muitos pontos, há um fato inescapável: estupradores presos não estupram, feminicidas presos não matam. Em março de 2020, havia 75.575 detidos na França, dos quais aproximadamente 1 em cada 4 (22%) é um agressor sexual. Deixar livre esses milhares de predadores sexuais dos mais terríveis - pedófilos reincidentes, estupradores em série, etc.; perpetradores de simples agressões sexuais raramente são presos - é uma ideia aberrante que reflete uma indiferença inconcebível para a segurança de mulheres e crianças.

Não posso esquecer o que dizem as mulheres vítimas de violência e recentemente vítima de tentativa de homicídio: que não podiam deixar de viver no terror (angústia, pânico, pesadelos, ter a impressão de estar sendo seguida, ouvir assaltos à noite, temer que seus filhos sejam sequestrados ou mortos, etc.) do que quando seus agressores estavam na prisão. Quando eles estavam livres, elas sabiam que estavam em perigo de morte. São essas mulheres que devem ser nossa prioridade, não a “cura” de seus agressores, nem o apaziguamento da comunidade. A resposta aos crimes sexuais masculinos não pode ser uma acomodação razoável com os criminosos e o “feminismo anticarcerário”, longe de estar “centrado na mulher”, é objetivamente uma ideologia de proteção de homens violentos.

As feministas lutaram durante décadas contra essa antiga regra patriarcal que estipula que os crimes contra as mulheres, cometidos na esfera privada, não têm a ver com justiça e lutaram para que os autores desses crimes fossem levados à justiça e, se possível, impedidos de reincidir. A justiça restaurativa, ao trazer esses crimes de volta à esfera privada e pretendendo liberar os estupradores de qualquer sanção penal, é portadora de um grande retrocesso em relação a essas conquistas do feminismo e agrava a relação desigual que existe entre homens e mulheres, da qual decorre a violência masculina em vez de reduzi-la. Continuaremos a lutar por uma melhor proteção das vítimas contra esta violência, para que seu direito humano fundamental à segurança seja finalmente efetivamente garantido e que não acabem em estatísticas anônimas na lista anual de feminicídios e na multidão de vítimas de estupro. Na medida em que esse objetivo requer (no caso de não haver outras opções efetivas) o encarceramento de seus agressores, a contradição entre o feminismo radical e o feminismo anticarcerário parece intransponível.

 

REFERÊNCIAS

1.                   https://worldpopulationreview.com/country-rankings/rape-statistics-by-country e https://www.statista.com/statistics/1177271/number-of-reported-cases-of-sexual-offence-in- Suécia por tipo /

2.                   http://www.justice.gouv.fr/statistiques-10054/infostats-justice-10057/les-condamnations-pour-violences-sexuelles-31757.html e https://www.lepoint.fr/societe/feminicides- 121-mulheres-mortas-em-2018-por-seu-cônjuge-ou-ex-companheiro-10-07-2019-2323920_23.php #: ~: text = Em% 202018% 2C% 20121% 20femmes% 20ont,% C3% A9poux% 2C% 20concubins% 2C% 20etc .)

3.                   http://www.sexual-offender-treatment.org/88.html

4.                   Idem.

5.                   Idem.

6.                   Idem.

7.                   Idem.

8.                   “Tratamento para ofensores sexuais para reduzir a reincidência entre criminosos sexuais condenados (2017)

9.                   https://fr.wikipedia.org/wiki/Viol_en_France

10.               https://ici.radio-canada.ca/nouvelle/1780353/inegalite-budget-eric-girard-isabelle-charest e https://ici.radio-canada.ca/nouvelle/1788965/hommes-violents-aide- quebec-violent-conjugale-feminicide #: ~: text = La% 20vice% 2Dpremi% C3% A8re% 20ministre% 20et, publique% 20du% 20Qu% C3% A9bec% 2C% 20Genevi% C3% A8ve% 20Guilbault. & text = Les% 20organismes% 20vou% C3% A9s% 20% C3% A0% 20aider, cours% 20des% 20cinq% 20prochaines% 20ann% C3% A9es .

11.               Correctionalisation  https://www.village-justice.com/articles/correctionnalisation-viol-point-vue-avocat-victime-par-Carine-DURRIEU-DIEBOLT,24384.html

12.               http://psychology.iresearchnet.com/forensic-psychology/violence-risk-assessment/sex-offender-recidivism/

13.               https://www.vice.com/fr/article/93yy3e/pourquoi-la-prison-pose-probleme-gwenola-ricordeau-sur-labolitionnisme

14.               https://www.lejdd.fr/Societe/Justice/la-justice-restaurative-un-outil-contre-les-violences-sexuelles-3870218

15.               https://www.lemonde.fr/police-justice/article/2018/09/14/en-dix-ans-le-nombre-de-personnes-condamnees-pour-viol-a-chute-de-40_5354839_1653578. html

16.               https://smart.ojp.gov/somapi/chapter-3-sex-offender-typologies

17.               https://friction-magazine.fr/lgbtqi-contre-la-prison-emploi-avec-gwenola-ricordeau/

18.               https://www.vice.com/fr/article/93yy3e/pourquoi-la-prison-pose-probleme-gwenola-ricordeau-sur-labolitionnisme

 

FONTE 

https://revolutionfeministe.wordpress.com/2021/05/23/rehabilitation-des-hommes-violents-efficace-ou-poudre-aux-yeux/?fbclid=IwAR1-aMIyAjI_en5OOuvoOHsvnR7YOeokRptYl2w2gmxOeQxARopxekSf85E